Tudo depende de Netanyahu

Na segunda-feira (2), os israelenses correram às urnas, pela terceira vez em menos de um ano, para eleger o 23º Knesset. A campanha eleitoral foi muito feia e suja, com acusações mútuas dos principais concorrentes, os Benjamin, Netanyahu e Gantz. Neste dia, 6.453.255 eleitores, tinham direito de escolher pela terceira vez em 11 meses, entre 29 partidos. Desta vez, por causa do Coronavírus, espalharam urnas especiais esterilizadas. Acreditava-se que muitas pessoas já estavam fartas de eleições e deixariam de cumprir o seu direito e obrigação cívica, mas para surpresa geral, a porcentagem foi maior (7%(1 comparado a 68,5% e 69,8%, nas duas anteriores.

Às 22h todo o povo assistindo pela televisão aos resultados (não oficiais) das pesquisas de boca de urna, que davam uma reviravolta. O Likud ultrapassava o Kachol-Lavan, obtendo 36 a 37 deputados, contra 32 a 33. De um lado, via-se o Netanyahu vibrando, ante o Gantz, com cara de luto. Não só pela diferença de deputados que elegeram, mas também pelo bloco que eventualmente poderia formar novo governo liderado pelo Benjamin (Bibi) Netanyahu. Ele já se encarregou algumas vezes de fazê-los assinar cartas de compromisso só com ele. O bloco que se auto denominou, “da direita” inclui o Likud, os religiosos nacionalistas do Partido Yemina (a Direita), mais os ultra ortodoxos do Shas e principalmente do Yahadut Hatorá, que não são da direita. Seus filhos não se alistam no Exército e estão na coalizão por interesses do seu próprio setor. Juntos obtiveram, nas pesquisas não oficiais, 60 deputados favoráveis.

Charge do Amos Biderman, Ha’aretz, 2/3/20. Na parede estampado, abril-setembro e março, Presidente Rivlin e os dois rivais, Netanyahu e Gantz

 

Por outro lado, o Kachol-Lavan (KL) e sua coligação, chamada pelo Likud de “esquerda”, não é tão coesa. O KL é na realidade Centro e tem elementos da direita e da esquerda. Quem se disse a favor do Gantz na chefia da nação, foram os que não queriam o Netanyahu, seja pelas acusações de corrupção, ou pelas acusações de racismo. O líder da LAU (Lista Árabe Unida), deputado Aiman Ouda, disse em alegoria ao Purim – que será comemorado na próxima semana – “apoiamos o Gantz, não por gostar dele (Mordecai), mas pela raiva ao Netanyahu (Haman)”. O Netanyahu teve entre outros o slogan de que o Gantz só poderá formar coalizão com os árabes. No entanto eles têm direitos, podem votar e ser eleitos e disseram que só apoiarão um possível governo do Gantz, por fora e não querem integrar nenhum governo israelense.

O eterno fiel da balança, nestas três últimas eleições, Avigdor Lieberman, do Israel Beiteinu, partido de direita, que Netanyahu acusa de ser da esquerda, por não lhe apoiar, avisou inúmeras vezes que não sentaria à mesa de governo, com apoio dos partidos árabes, que compõem a LAU.

Com o passar dos dias, a euforia do Netanyahu (“obtivemos tremenda vitória”) foi se dissipando, as informações foram variando. No começo das apurações, os coligados sentiam-se perto do trono, com 60 deputados, bastando atrair um ou dois deputados de outros partidos, para o seu lado. As informações corriam que deputados, que nunca se ouviu seu nome, estavam sendo iscados. Na quarta (4) o quadro mudou, saíram os dados oficiais do TRE, que davam conta que o Likud é o maior partido, com 36 deputados, seguido pelo Kachol- Lavan, 33, a Lista Árabe Unida com 15, Shas- 9, Avodá/Guesher/Meretz-7, Yahadut Hatorá-7, Israel Beiteinu-7 e Yemina-6. Pelos blocos, a atual coalizão, também chamada direita tem 58 deputados, o bloco do centro-esquerda (inclui árabes) conta com 55 deputados e quem poderia decidir, é o Lieberman com sete. Só que este muda a fala a cada hora. “não sentarei com Primeiro Ministro que tem acusações criminais” e em seguida diz: não apoiará o KL se tiver apoio do Partido Árabe. Então vai apoiar a quem?

A situação como se nota é muito complicada. Netanyahu provavelmente terá que enfrentar a justiça em poucos dias, seu julgamento terá inicio no dia 17 de março. Escrevo provavelmente porque ele tenta evitar enfrentar os três juízes. Há partidos, como o KL, IB que querem trazer uma nova legislação, proibindo pessoa enfrentando a justiça candidatar-se ao posto de Primeiro Ministro. Os deputados do Likud alegam que isto é perseguição pessoal contra Netanyahu. Os pais fundadores do Estado não imaginaram isso possível e por isto não legislaram algo neste sentido. Qualquer ministro que é indiciado tem que se demitir ou ser demitido e o absurdo é que o chefe do Estado não é obrigado a fazê-lo e, nesta lacuna, Netanyahu entra. Para muitos, quanto mais ele se esforça para não enfrentar a justiça, mais suspeitas levanta. Nesta guerra, Netanyahu com deputados aliados confronta a polícia, o Procurador Geral do País, que são pessoas de sua confiança e que ele nomeou.

As acusações de perseguição não tem procedência. Os líderes da nação têm a obrigação de dar exemplo pessoal. Quando o ex-premier Ehud Olmert estava sendo alvo de investigações criminais, até seus ex amigos de partido (Olmert era do Likud e foi com Ariel Sharon e outros para o novo partido que fundaram, o Kadima), como o próprio Netanyahu, lhe pressionaram para que se demitisse. Na época (2008) o líder da oposição, Netanyahu em entrevista à TV disse: “trata-se de primeiro ministro afundado até o pescoço em inquéritos. Não tem mandato público e moral de decidir coisas vitais para o Estado… há possibilidade que tomará decisões do seu interesse pessoal e não do interesse nacional”.

Tudo está nas mãos do Netanyahu. Os partidos opositores a ele declaram que não sentarão com ele num governo, por estar sob acusações esperando decisão da justiça. Esses mesmos partidos não descartam formar governo de unidade nacional, com o Likud, sem o Netanyahu. Este partido que já estava na lona, ressurgiu sob o carismático e bem falante Netanyahu. Ninguém no Likud se atreve a contrariá-lo. Só o popular deputado Gideon Saar enfrentou-o em eleições internas e perdeu. Saar voltou a dizer que o Likud poderia formar novo governo de unidade nacional, se o Netanyahu saísse do caminho. O Presidente Rivlin, está receoso (ele nomeia os que têm chance de formar governo) e anteontem (4) disse: “não merecemos mais uma campanha violenta de eleições, que está se deteriorando até nojo”.

Parece que na política quem não joga deslealmente, perde. Mas há certos países, como os EUA e até mesmo o Brasil, que limitam o mandato para dois períodos, justamente para evitar o ditado “o poder corrompe”. O que não se fez em dois mandatos, muito dificilmente se fará depois. Mesmo nesta campanha, Netanyahu prometeu trazer para Israel mais 7.000 judeus-etíopes, construir milhares de casas na Judeia e Samaria e outras promessas, que não foram cumpridas até agora, apesar dele já governar 14 anos.

Google homenageia as eleições em Israel

 

Nestas condições, no momento em que escrevo, é muito difícil, talvez impossível formar um novo governo. Se não tiver outra alternativa, o país que está sem governo há mais de um ano, sem orçamento governamental, entrando em déficit, com inimigos em sua volta, não pode se dar ao luxo de enfrentar as quartas eleições. A própria democracia israelense de que tanto nos orgulhamos, está em perigo.

Esta nas mãos do Netanyahu decidir, se ele continua a se dizer perseguido e “enfrentar sua inocência” fora do tribunal, ou se dedica inteiramente para comprovar que é inocente, voltando como herói. Deixaria o seu posto, para que o país se tranquilize politicamente. O Estado de Israel não precisa de brigas internas, tem demais brigas e desafios que enfrenta. Nessas horas a responsabilidade tem que prevalecer e o caso nacional tomar o primeiro plano, deixando de lado o pessoal.

Foto: Emil Salman (Ha’aretz)

2 thoughts on “Tudo depende de Netanyahu

  • 6 de março de 2020 em 13:52
    Permalink

    Emília Salman: seja humilde e reconheça a tua tendenciosidade. Tenha um pingo de respeito pelo resultado das urnas! Todos nós que amamos Israel é que dizemos que o Ganz é um esquerdista malcomunados com os árabes que só crescem numericamente no Knesset e prometem destruir Israel.

    Resposta
  • 7 de março de 2020 em 22:59
    Permalink

    Realmente e uma vergonha dar espaco a uma esquerdista tendenciosa escrevendo um monte de distorcoes a respeito da politica israelense! Mas, depois de ver as origens das fotos publicadas na materia acima da para perceber nitidamente que essa Revista Brasil.il e esquedista ja que se apoia no Haaretz . O pasquim da extrema esquerda de israel!! Prova mais uma vez que nao sabem perder as eleicoes e tentam, por meios mentirosos derrubar a vontade popular! Exatamente como nos Estados Unidos e no Brasil!! Que vergonha!!!

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *