A Rainha Elizabeth II e Israel

Por Deborah Srour Politis

Hoje a manhã está nublada, muito diferente do 11 de setembro de há 21 anos. Aquela manhã de terça-feira estava límpida, com um céu azul intenso e o ar fresco do começo do outono. Mas aí sofremos o pior ataque terrorista da história da humanidade. Um evento que fez o mundo parar por dias e mudou nossas vidas em um momento. Mudou como andamos nas ruas e metrô, como viajamos, para onde escolhemos ir. Mas sempre lembramos as quase 3 mil vidas que foram tiradas naquele dia.

Tendo dito isto, nesta semana vivemos um evento histórico.  A morte da rainha Elizabeth II, coroada em 1952, quatro anos depois do fim do Mandato Britânico para a Palestina e da criação do Estado de Israel.

Em 1917, a fim de ganhar o apoio judaico para o esforço da Primeira Guerra Mundial, a Inglaterra, reconhecendo “a conexão histórica do povo judeu com a Palestina”, prometeu estabelecer um lar nacional judaico na Terra Santa através da Declaração Balfour.

No entanto, os ingleses também prometeram aos nacionalistas árabes um país árabe unido, cobrindo a maior parte do Oriente Médio árabe, se os turcos fossem derrotados. Quando a luta terminou em 1918, com o Império Otomano derrotado em todas as frentes, nenhuma das promessas foi cumprida.

Em julho de 1922, a Liga das Nações confiou à Grã-Bretanha o Mandato para a Palestina para facilitar o estabelecimento de um lar nacional judaico na Terra de Israel. Mas dois meses depois, em setembro de 1922, a Liga das Nações e a Grã-Bretanha decidiram que a criação de um lar nacional judaico não se aplicaria à área a leste do rio Jordão, que constituía três quartos do território incluído no Mandato. A parte leste eventualmente se tornou o Reino da Jordânia.

Mas o mandato era ainda para estabelecer o lar nacional judaico na Terra de Israel. Em vez disso, os ingleses começaram a tomar medida após medida contra seu próprio mandato. Os White Papers de 1930 e 1939 restringiram a imigração e a aquisição de terras por judeus. Depois da guerra, a Grã-Bretanha impôs um mandato de terror, fazendo prisões em massa e assassinatos de judeus, junto com um bloqueio para impedir a entrada na Palestina de refugiados desesperados que fugiam do Holocausto. Eles mandaram de volta dezenas de navios carregados de refugiados, como o Patria, o Stuma e o Exodus e refugiados foram enviados a outros campos de concentração em Chipre.

Em retaliação às ações de rebeldes judeus, os ingleses prenderam e executaram vários judeus, inclusive o menino de 16 anos Alexandre Rubowitz, sequestrado e morto por colar pôsteres. Seu corpo nunca foi encontrado.

Depois que a Assembleia Geral da ONU adotou a resolução de dividir a Palestina em 29 de novembro de 1947, a Grã-Bretanha anunciou o término de seu mandato sobre a Palestina, para entrar em vigor em 15 de maio de 1948. Em 14 de maio de 1948, o Estado de Israel foi proclamado.

Ao longo de suas décadas como chefe de Estado do Reino Unido, a rainha Elizabeth cultivou laços amigáveis com figuras comunitárias judaicas, bem como relações cordiais com líderes israelenses. Mas embora tenha feito visitas oficiais a dezenas de países ao longo de seu mandato, ela nunca visitou o Estado de Israel.

De fato, nenhum membro da família real visitou Israel oficialmente até 2018, quando o príncipe William chegou ao estado judeu em uma visita oficial sem precedentes, levantando o boicote não oficial.

Seu avô, o príncipe Philip, fez uma visita pessoal a Israel em 1994 para homenagear sua mãe, a princesa Alice da Grécia, que está enterrada no Monte das Oliveiras, em Jerusalém. E o príncipe Charles visitou Israel em 1995 e 2016 para participar dos funerais de Yitzhak Rabin e Shimon Peres. Essas estadias não eram, no entanto, visitas reais oficiais.

A recusa de décadas da família real em realizar uma visita oficial ao Estado de Israel – sem hesitar em visitar monarquias autoritárias como Arábia Saudita e Catar – é de coçar a cabeça.

Poder-se-ia dizer que a Inglaterra não tem um passado tão sangrento com estes países como com Israel. Mas a rainha não hesitou em visitar a Índia três vezes, que foi sua colônia e que também lutou bravamente por sua independência, e ainda pior, visitou a Irlanda, basicamente pedindo desculpas pelo passado. Foi uma reconciliação espantosa já que seu próprio primo, Lord Louis Mountbatten fora assassinado pelo IRA em 1979.

Um funcionário anônimo do governo britânico disse ao jornal The Telegraph em 2015 que “até que haja um acordo entre Israel e a Autoridade Palestina, a família real não pode realmente ir lá”.

Apesar do desprezo, a rainha cultivou laços estreitos e ganhou a lealdade dos judeus britânicos e qualquer crítica a ela é feita a portas fechadas.

Em 1996, durante uma visita à Polônia, a rainha Elizabeth foi criticada por não agendar uma parada no campo de concentração de Auschwitz. Em uma adição de última hora ao seu itinerário, ela visitou e colocou uma coroa de flores em um memorial judaico em Varsóvia, onde os judeus foram presos e transportados para o campo de extermínio de Treblinka.

Quase duas décadas depois, ela visitou um campo de concentração nazista. Em sua última viagem oficial ao exterior, a rainha Elizabeth viajou para a Alemanha. Embora fosse sua quinta viagem oficial à Alemanha, a rainha fez sua primeira visita a um campo de concentração em Bergen-Belsen e se encontrou com sobreviventes do Holocausto no local.

Depois de ouvir suas histórias, ela respondeu: “Deve ter sido horrível”.

Sim, foi. Foi horrível.

Passou da hora de termos uma visita oficial a Israel por um monarca britânico. Não há nenhuma desculpa legítima para isso não ter acontecido décadas atrás, exceto pelas políticas errôneas do Reino Unido em relação ao Oriente Médio.

Esperamos que esse erro seja corrigido agora com o novo rei Charles III.

Foto: Commonwealth Secretariat (Flickr)

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