As telinhas e os vícios

Por Marion Minerbo

Hoje Marion e AnaLisa conversam sobre as possíveis consequências emocionais de um cotidiano em que os pais estão fisicamente presentes, mas emocionalmente indisponíveis para seus filhos.

Marion – Olá, AnaLisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

AnaLisa – Olá, Marion. Outro dia estava no parque Yarkon e vi uma cena que me deu vontade de comentar com você. Uma mãe estava com seu filho na grama, mas ela passou todo o tempo conectada no celular. Não sei se era um joguinho ou se estava conversando com alguém. Eu via que a criança tentava fazer contato, mas em vão. Primeiro ficou agitada, depois desistiu.

Marion – Pois é, hoje somos todos mais ou menos “viciados” no celular. Cria-se uma situação perturbadora para a criança pequena. Ela vê a mãe fisicamente presente, mas sente que ela está emocionalmente ausente. Se este for um padrão de relacionamento, vai deixar marcas no desenvolvimento da personalidade.

AnaLisa – Será? Você está falando como se fosse algo tão grave como pais viciados em drogas!

Marion – Boa comparação. Qualquer que seja o vício, a prioridade do viciado é aquilo de que ele se tornou dependente. A criança e suas necessidades emocionais ficam em segundo plano.

AnaLisa – E qual seria a consequência disso?

Marion – Bem, elas sentem uma coisa paradoxal: se sentem sozinhas na presença do outro. Isso vai criando um vazio dentro delas.

AnaLisa – Um vazio?

Marion – É difícil, mas vou tentar descrever para você. É um vazio ruim, angustiante, um buraco no peito, uma sensação de solidão que não passa com nada. Essa sensação fica sempre lá, como pano de fundo, como uma nuvem escura que está sempre em cima da cabeça da pessoa. A criança, e depois o adolescente e o adulto, vão fazer qualquer coisa para tentar se livrar dela.

AnaLisa – Nossa, tudo isso porque a mãe é “viciada” em celular!

Marion – Qualquer coisa que produza sistematicamente uma situação de “corpo presente, mas alma ausente” acaba produzindo este efeito.

AnaLisa – Você disse que as crianças, e depois adolescentes e adultos, vão fazer qualquer coisa para se livrar deste vazio. Tipo o que?

Marion – Tipo usar drogas que aliviem esse sofrimento crônico: álcool, maconha, cocaína… Elas conseguem dissipar a nuvem escura sobre a cabeça por um tempo, mas nem preciso dizer que depois volta tudo igual – ou até pior! Por isso o uso tem que ser repetido e repetido, até causar dependência física.

AnaLisa – Entendo. E que outras coisas as pessoas podem fazer para se livrar desse vazio?

Marion – Se a pessoa fica quieta/parada, o vazio vem com tudo, então outra solução é fazer coisas compulsivamente: esporte, trabalho, sexo, comer… As sensações corporais que essas atividades produzem despistam o vazio por um tempo.

AnaLisa – No começo da nossa conversa você falava de uma mãe viciada no celular. Você acha que isto pode acontecer também com crianças?

Marion – Sim, bem lembrado. Tudo o que acontece na telinha – joguinhos, vídeos, música, whatsapp, internet – tudo isso faz companhia para o “usuário”, e deste modo o “salva” de cair no vazio. É por isso que é tão fácil se tornar dependente, isto é, viciado em telinhas.

AnaLisa – Entendo. Quer dizer que a mãe que vi no parque também poderia estar tentando preencher o vazio dela através do contato com pessoas através do celular?

Marion – Muito provavelmente. É por isso que não adianta culpar pais e mães – nós todos temos nossos buracos emocionais herdados desde a infância. É sempre bom lembrar que somos apenas seres humanos tentando levar a vida do jeito menos sofrido possível, com alguma alegria e algum prazer.

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