Na Síria, América sai, Rússia entra

Por David S. Moran

Nove dias depois da invasão turca e sua ofensiva no norte da Síria, toda a geopolítica do Oriente Médio parece mudar novamente. Novas alianças se formam e novos inimigos também.

Como já relatei na semana passada, o “novo sultão” turco, Erdogan não se importa com ninguém e vai seguindo os seus anseios, sem levar em consideração as consequências.

Vale a pena lembrar que a Turquia tem o segundo maior exército da OTAN, organização a que todos juram lealdade, “um por todos e todos por um”, mas isto não prevalece para o novo ditador de Ancara, Erdogan, que sabe criticar todos os que não estão com ele, dentro e fora do país. Na Turquia prende qualquer um que se atreve a falar ou tentar agir contra ele. No exterior, critica os países que não se alinham com ele e ou com seu ideal islamista. O país que mais gosta de criticar é o Estado de Israel. Ele mata civis curdos, sem nenhum remorso e já causou o deslocamento de cerca de 300.000 curdos, em uma semana. Seu objetivo é criar uma zona desmilitarizada de cerca de 30 km de extensão ao longo de sua fronteira com a Síria. Ali, se tiver sucesso, gostaria de recolocar mais de dois milhões de refugiados sírios (dos 3,6 milhões, que estão em seu território e que são sunitas) e desestabilizar a ordem religiosa da Síria. Evidentemente, ele quer enfraquecer os curdos sírios, para tirar da cabeça dos curdos turcos, em particular, e dos demais no geral, a ideia de se rebelarem para adquirir um Estado independente. Este iria desde o Irã, passando pelo norte do Iraque e da Síria, até o sul da Turquia.

O Erdogan, que pensa em retornar ao Império turco (uma potência mundial durante cerca de 400 anos), tem ódio feroz dos cerca de 15 milhões de curdos da Turquia, que almejam ter um Estado próprio. Combate ferozmente a milícia curda do PKK. O governo turco nega e adverte qualquer país que reconheça o genocídio armênio, promovido pelo Império turco, durante a 1ª Guerra Mundial, e que matou cerca de 1,5 milhão de pessoas.

O que menos se fala nesta nova empreitada da Turquia, é que ela também tem objetivo de desviar a atenção do povo turco dos seus problemas econômicos. Esta está enfraquecendo e beirando o colapso. Até por conta dos cerca de 3,6 milhões de refugiados sírios na Turquia, seu governo recebe anualmente ajuda financeira do Ocidente, na ordem de quatro bilhões de dólares. É a apólice de segurança paga a Turquia para manter lá os refugiados e não deixá-los invadir a Europa. O Erdogan até ameaçou os países europeus de não se atreverem a confrontá-los na sua luta contra os curdos, se não abre as fronteiras.

Os Ministros do Exterior da União Europeia tiveram esta semana (15/10) um encontro em Luxemburgo. Entre outras, pediram aos EUA convocar os países da coalizão internacional contra Daesh (EI) para analisar as consequências do caos no norte da Síria e a possível fuga de presos de terroristas do EI, que estão em prisões dos curdos. Ademais, outro objetivo do Erdogan é a libertação de terroristas do EI, com o qual ele se solidariza e que lhe serve para combater os curdos, desde a Síria até o Irã. Os líderes da Europa ameaçam ampliar o embargo militar sobre a Turquia. Quem levará vantagem com tal medida são a Rússia e a China.

O Erdogan compete com o Trump na arrogância. O presidente americano advertiu-o de “não fazer bobagem”, o ditador turco nem pestanejou ao atacar o norte da Síria. Trump lhe disse que enviaria seu vice, Mike Pence, e o Secretário de Estado, Mike Pompeo, e o “sultão” informou que não os receberá. “Só falarei com o Trump.” Este, numa nova tentativa, lhe escreveu uma carta finalizando com termos não diplomáticos: “não sejas teimoso, não sejas bobo, faça acordo” e o Erdogan a jogou no lixo. Ontem, 17/10, voltou atrás e se encontrou com eles.

A geopolítica mudou completamente

Coisas inimagináveis, até a pouco, ocorreram bem rapidamente. Forças americanas, por incrível que pareça, abriram as portas e deram conselhos a tropas russas que tomaram seu lugar. Há relatos que, em certos lugares, militares americanos adiaram sua saída, só para esperar os russos chegarem.

Forças curdas que, até há meses, combatiam as forças sírias, agora, com o que consideram a “traição americana”, recorreram e recepcionaram alegremente a ajuda síria e russa.

O Trump que chamou a Síria de “país de areia e morte”, teve o objetivo de eliminar o Daesh, que já chegou a dominar a metade da Síria, envolvida numa guerra civil. A lei da Física nos ensina que não há vácuo. As forças americanas usaram mais a sua aviação e tiveram ajuda terrestre dos curdos, no norte da Síria e no oeste do Iraque, tiveram grandes perdas humanas. Agora o regime de Bashar Assad está retomando o território perdido aos curdos.

Outros vencedores da situação que se formou são:

1) O Irã. O norte da Síria não é desenvolvido e nem tem matérias primas. Os curdos nesta área dominaram a importante confluência e rede de estradas, que vão desde o Irã, passando pelo Iraque e na Síria junto à fronteira da Turquia, até os portos sírios no Mediterrâneo. Agora, o Irã poderá, eventualmente, se ninguém o impedir, ter acesso mais fácil ao Líbano e ao Mar Mediterrâneo.

2) Outro elemento é o Daesh (EI). Antes mesmo das tropas turcas chegarem e libertarem seus presos nos cárceres curdos, parte deles conseguiu fugir das cadeias, devido à caótica situação na região. Quem entrou em pânico foi, principalmente, o governo do Iraque, que teme a volta dos terroristas islâmicos ao seu território.

Os grandes perdedores são primeiramente os curdos, que mais uma vez não conseguem fundar um Estado seu independente. Também os EUA, que se julgando uma potência mundial, talvez a maior potência mundial, perde a sua confiança entre seus aliados. Estes não sabem se poderão contar com este aliado. Ademais, uma potência mundial não larga deste modo um aliado, que se sacrificou, também, por ele. Entregou as cartas para seus adversários como a Síria e a Rússia.

Quem são os curdos?

O povo curdo tem entre 25 e 40 milhões de pessoas, cuja maioria (15 milhões) vive na Turquia, na Síria, de 1 a 3 milhões, Irã, cerca de 6 milhões e Iraque que tem entre 7 e 9 milhões. Em Israel vivem cerca de 130.000 judeus, que emigraram para o país. A grande maioria dos curdos são sunitas, 65%, xiitas 10%, outros 10% são alawitas e cerca de 15% são de variedades de cristãos. Etnicamente pertencem aos iranianos. É o maior povo do mundo que ainda não obteve um Estado próprio, apesar de várias promessas. Não só pela luta contra outros povos, mas também pela sua divisão interna entre os líderes Mistefa Barzani e Talibani.

Os curdos e Israel

Para os curdos, o Estado de Israel lhes serve de modelo. Também é um país pequeno numa região hostil e que conseguiu conquistar sua independência e prosperidade. Os curdos admiram muito Israel e os judeus. Os judeus do Curdistão, sempre foram leais aos seus líderes. Depois de conquistar seu próprio país, Israel, e devido à hostilidade ao redor, resolveram emigrar ao novo Estado. O Estado de Israel, sigilosamente estendeu ajuda militar e hospitalar ao Barazani e seus comandados.