O vírus do antissemitismo

Por Deborah Srour Politis

Nesta época de pandemia todos nós aprendemos alguma coisa sobre o vírus. Uma delas é que a pior coisa que pode acontecer quando há um surto em um local, é o vírus ser transportado para outro local.

Em menos de um ano o coronavírus chegou aos quatro cantos do mundo custando a vida de milhões e praticamente a economia mundial.

Mas há outro vírus se alastrando mundo a fora, de um modo não mais tão sutil. E este é o vírus do antissemitismo.

Há duas semanas, 300 pessoas foram ao cemitério da Almudena na Espanha, para comemorar a chamada “divisão azul”, uma divisão de voluntários espanhóis que lutaram do lado dos nazistas na Segunda Guerra Mundial. O evento incluiu um padre e várias saudações nazistas foram filmadas e postadas na mídia social. O que especialmente viralizou, foi um discurso inflamatório feito por uma jovem, que não devia ter 20 anos de idade, se declarando fascista e colocando a culpa de todos os males do mundo, em quem? Nos judeus, é claro.

Algumas semanas atrás, o Leo Lins, um comediante brasileiro, quis fazer uma piada dizendo que na sala de cinema era possível colocar pelo menos 18 judeus no cinzeiro se socassem bem. Para mim, o que foi ofensivo não foi tanto a piada sem graça mas as risadas incontroláveis da audiência. Lins demonstrou como o sentimento antissemita anda no Brasil.

No final de janeiro, Hélder Teixeira, um participante do Big Brother de Portugal foi expulso do programa por imitar um soldado nazista fazendo a saudação a Hitler e tudo mais. Os promotores do programa disseram que ele havia passado todos os limites.

E na semana passada, no programa da NBC, Saturday Night Live, aqui em Nova Iorque, o comediante Michael Che, soltou uma piada idiota sobre Israel e a vacina contra o coronavírus dizendo: “Israel declarou que vacinou metade de sua população”. “Eu vou adivinhar que é a metade judia.”

Por outro lado, a atriz Gina Carano, a líder do programa The Mandalorian do Canal Disney, foi despedida por ter comparado o “ódio a alguém por suas opiniões políticas com o tratamento dos judeus durante o Holocausto”. E nisso ela tem razão. O Holocausto não começou com os fornos crematórios. Ele terminou com eles. No começo os nazistas vilificaram os judeus, perseguiram aqueles que tinham alguma voz e manipularam a opinião publica contra eles. Exatamente o que os democratas fizeram e continuam a fazer com Donald Trump e seus seguidores e Carano disse isso. Alegando uma falsa indignação por ela ter feito esta simples comparação, Disney despediu a atriz.

E isso tudo nestes dois primeiros meses de 2021.

O que todas estas tentativas de comédia nas costas de judeus têm em comum é de serem de mau gosto, insensíveis, que não apenas distorcem a realidade, mas jogam com todos os estereótipos antissemitas feios sobre judeus. De serem os causadores dos males a egoístas que se preocupam apenas com eles próprios. E sobre Israel, Che está completamente errado. Todos os israelenses com mais de 16 anos podem receber a vacina, gratuitamente e isso inclui dois milhões de cidadãos árabes.

O que alarma é que o mundo mais uma vez está comprando as falsas narrativas que causaram tanta dor e mortes no passado. Do primeiro libelo de sangue, ocorrido na Inglaterra em 1144, passando pela publicação dos Protocolos dos Sábios de Sião em 1903 na Rússia sobre um suposto plano judaico de dominar o mundo, até o genocídio industrializado do Holocausto, achávamos que o mundo tinha aprendido. Que o vírus do antissemitismo havia sido erradicado na Europa. Mas não.

Ele sofreu uma mutação e contaminou os países árabes e muçulmanos. E com esta população doutrinada imigrando para o velho continente, o antissemitismo voltou para a Europa de forma diferente. Agora o antissemitismo inclui não somente o ódio ao judeu, mas a Israel. A narrativa usada na mídia social e nos noticiários é que Israel cuida de sua população judaica “branca”, mas não de seus cidadãos árabes que apesar de também serem brancos, são considerados como sendo de “cor”.

Como é possível pensar assim no século 21? Infelizmente nós, judeus, temos feito um péssimo trabalho para educar o mundo sobre quem somos, sobre o que comanda nossa religião e também o fato de que os três milhões de cidadãos árabes de Israel desfrutam de maiores liberdades do que em qualquer país do Oriente Médio. Quanto à corona, dois terços dos cidadãos árabes de Israel já foram vacinados. E sobre os judeus em Israel serem brancos, Israel tem uma população judaica negra de milhares que ela salvou de perseguições em ousadas operações militares na Etiópia. Israel foi o único país da História que trouxe negros da África para a liberdade e não para a escravidão.

Seja através de comediantes ou da mídia parcial, a ideia de Israel ser um país racista que pratica o apartheid predomina. E muitas vezes este tipo de alegação fica sem resposta, pois assumimos que não há como vencer esse tipo de acusação.

Então vamos lá com fatos: a Bíblia Judaica ensinou ao mundo que todo ser humano é criado igualmente à imagem de Deus, independente de raça, cor ou credo. Sangue é considerado a coisa mais impura na religião judaica. Um ovo com uma gotícula de sangue não pode ser usado de modo algum ou ingerido. Quanto mais o sangue de um ser humano.

Israel é a única democracia no Oriente Médio onde árabes gozam de todos os direitos igualmente aos judeus, exceto quanto a uma coisa: os árabes não são obrigados a servir o exército, que é obrigatório aos judeus. Eles podem ser voluntários.

Com os Acordos de Oslo, de 1995, a Autoridade Palestina assumiu a responsabilidade pelos palestinos que vivem na Cisjordânia e em Gaza. Mesmo assim, Israel transferiu para eles milhares de doses para seus médicos e enfermeiras e concordou em vacinar cerca de 100 mil palestinos que são empregados por Israel apesar da ampla propaganda de Mahmoud Abbas que as vacinas de Israel não eram seguras e que ele iria importar a vacina russa para os palestinos.

Nada disso significa que não se possa criticar ou questionar Israel. Claro que sim. Israel é uma democracia aberta e livre. Um país com menos de 100 anos que ainda tem muito que fazer. Mas hoje, por causa de Israel, nós judeus podemos levantar a voz. Já não somos órfãos, sem-teto. Temos a obrigação de atacar cada comentário antissemita e aqueles que nos negam o direito de autodeterminação em nossa terra ancestral.

Nós sabemos a diferença entre humor e calunia. E sabemos o que é ser mal representado por estereótipos mentirosos. E isso inclui pessoas que fazem o que parecem ser piadas inofensivas, mas que perpetuam situações que são tudo menos engraçadas.

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