Sobre a capacidade de amar e trabalhar

Por Marion Minerbo

Marion – Olá, AnaLisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

AnaLisa – Olá, Marion. Mais uma vez eu visitei amigos no shabat, e vi uma cena que me chamou a atenção. A filhinha do casal tinha se machucado e estava berrando. Acho que era mais pelo susto do que pela dor. Ela dizia: “não foi nada, não precisa fazer esse escândalo, o que a tia AnaLisa vai pensar?”. Acho que a mãe estava com vergonha de mim, e por isso deu uma dura na filha. Me deu pena, porque eu vi nos olhinhos arregalados da criança que a resposta da mãe era muito mais perturbadora do que o susto ou a dor do machucado.

Marion – Bem observado, AnaLisa. Podemos falar, então, sobre a importância de os pais reconhecerem e se conectarem com os sentimentos dos filhos, quaisquer que sejam eles.

AnaLisa – Com que idade uma criança começa a ter sentimentos?

Marion – Olha, um recém-nascido é um feixe de sensações. E muito antes que ele possa pensar ou falar, sente o “clima” do ambiente em volta dele. E, principalmente, sente o que os adultos significativos sentem por ele. Os sentimentos são uma continuidade das sensações.

AnaLisa – Nossa, isso é novo para mim! Sabia que podiam sentir frio, sono e fome. São sensações. Mas não sabia que eles já têm sentimentos!

Marion – Pois é. Então, é muito importante que os pais consigam reconhecer, validar e lidar de maneira adequada com esses sentimentos. Bebês sentem raiva, sentem angústia… É vital que os sentimentos não sejam negados, diminuídos, desvalorizados ou desprezados. É isso que você percebeu na cena que descreveu para mim.

AnaLisa – Engraçado como a mãe me via como alguém que podia ter um olhar crítico sobre a filha, ou pior, sobre ela.

Marion – Bem pensado. Se for isso, era tão importante ela sair bem na foto que acabou atropelando os sentimentos da filha.

AnaLisa – Ou então é uma questão de empatia. Acho que ela não empatizava com o susto da filha. Como o machucado não era grave, então estava tudo certo, não precisava de escândalo.

Marion – Eu já te disse que você é muito perspicaz, e tem uma boa leitura das emoções presentes nas situações que observa. Seja qual for a razão, negar ou desvalorizar o que uma criança está sentindo, ou deixá-la sozinha com sensações e sentimentos difíceis, prejudica sua capacidade de se conectar consigo mesma, com seus próprios sentimentos. Por incrível que pareça, falar do que dói com alguém que consegue se conectar com a dor, acalma!

AnaLisa – E quais as consequências disso?

Marion – Ela não vai aprender a se acalmar diante das adversidades da vida. Sua capacidade de lidar com dificuldades e frustrações vai diminuindo, o que acaba prejudicando tudo: desde o rendimento escolar, até a vida social, depois profissional e até amorosa. Porque para se relacionar com pessoas é preciso aguentar o lado difícil delas, né?

AnaLisa – Puxa, então é assim que se prepara o terreno para adultos deprimidos e ansiosos! Poderia falar mais sobre isso?

Marion – Claro! Lembre-se de que a Psicanálise não é uma ciência exata, não temos bola de cristal. Vamos imaginar alguém que não aguenta as frustrações normais da vida.

AnaLisa – Não consegue terminar uma tarefa…

Marion – Ou porque chuta o pau da barraca à primeira dificuldade, ou porque sua autoestima vai para o buraco, de tanto acumular fracasso atrás de fracasso… Essa pessoa acaba tendo vergonha de si mesma, de quem ela é. Começa a fugir do mundo, a se esconder, a se sentir um fracasso. Sente que não é digna de amor. Enfim, em algum momento perde as esperanças em si e na vida e, aí, simplesmente não vai atrás de mais nada. Dizemos, então, que essa pessoa está deprimida…

AnaLisa – Puxa! Uma das grandes fontes de felicidade é ter um projeto qualquer, ir atrás, enfrentar as dificuldades e chegar a algum resultado mais ou menos satisfatório. Ou seja, conseguir se sentir produtivo.

Marion – Freud dizia que os dois sinais de saúde mental são a capacidade de amar e a capacidade de trabalhar – no sentido de ser produtivo, não de trabalho formal.

AnaLisa – Concordo. Então é lá atrás, no miúdo do cotidiano, das relações com as pessoas significativas – e de forma quase invisível a olho nu – que se estabelecem a capacidade de amar e trabalhar!

Foto: PxHere

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