Entre países há interesses, não amigos

O Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu gaba-se de que tem amigos no cenário mundial, principalmente o presidente americano Donald Trump e o presidente da Rússia Vladimir Putin. Verdade, com os dois ele manteve encontros pessoais e telefonemas (Putin não veio a Israel) mas, no resultado final, entende-se que entre os líderes não há amigos, há interesses.

Putin entendeu, num determinado momento, que é melhor manter seu “cliente” sírio no poder e decidiu ajudar o ditador Bashar Assad. Apesar da carnificina que Assad fez, durante anos, no seu país, contra o seu próprio povo, resultando na morte de centenas de milhares e com milhões de feridos (sim, milhões) e outros milhões de refugiados e deslocados, o presidente russo, não levou muito em conta o seu “amigo” Netanyahu. Em 2015, Putin enviou soldados à Síria, montou uma base aérea, uma base marítima em Tartus, fora a de Latakia, instalou misseis antiaéreos e os entregou aos sírios. Mísseis que podem comprometer as ações de caças israelenses contra alvos hostis nesta região. Mais do que isto. Apesar de prometer retirar as forças iranianas e pró-iranianas da Síria, nem mesmo conseguiu afastá-los a mais de 80 km da fronteira com Israel. Houve uma diminuição de iranianos na Síria, mas isto pode ser consequência das sanções econômicas dos EUA contra o Irã.

O amigo Trump certamente fez ações históricas nas relações entre os dois países. Reconheceu e transferiu a embaixada americana para Jerusalém e reconheceu a soberania israelense sobre o Planalto do Golan, entre outras. Mas, agora, tratando-se do Plano (de Paz) do Século, que está para ser lançado, depois das eleições de 17 de setembro, certamente muitos pontos não vão agradar o atual governo.

O governo americano não ficou satisfeito com as ações ousadas e corajosas das últimas semanas, principalmente no Iraque, e que podem comprometer soldados americanos. Além disso, o receio de que estas ações possam enfraquecer o atual governo iraquiano, de maioria xiita, não tão radical quanto o do Irã, e perder um importante aliado.

A insatisfação americana foi demonstrada quando os EUA vazaram a informação de que a ação israelense destruiu armazenamento de mísseis iraniano em solo do Iraque para serem transferidos ao Líbano. Esta ação não foi confirmada nem desmentida por Israel. Parece que também houve falta de coordenação com os americanos, o que levou a um mal estar entre o Exercito de Defesa de Israel e o Mossad, cada um acusando o outro. De qualquer forma, este vazamento de informação demonstra o desgosto dos EUA com certas atividades que para Israel são vitais.

Uma prova disso foi o ataque no início da semana com dois drones israelenses, no centro de Beirute, no bairro Dahiye, onde está a sede da Hizballah. Desde o fim da 2ª Guerra do Líbano, Israel evitou fazer qualquer ação no Líbano. Isto não significa que o Serviço de Inteligência não acompanha as atividades da Hizballah. Quando soube que o Irã pretende montar uma fábrica de mísseis de alta precisão no Líbano, para não precisar transportá-los e correr o risco de serem atacados por Israel ainda na Síria ou mesmo no Iraque, Israel agiu. Enviou um drone da Inteligência para fotografar um aparelho vital para este fim e em seguida um segundo drone o fez explodir. Evidentemente que o líder da Hizballah, Hassan Nasrallah lançou suas ameaças antes mesmo do governo do Líbano. Nassralah quer e necessita agir para não perder credibilidade. Ao mesmo tempo, está enfraquecido com a morte e ferimento de milhares de seus terroristas na guerra civil síria e talvez se contente com uma ação simbólica. Israel já avisou de que se civis israelenses forem atacados, causará grandes danos no Líbano.

Outra preocupação israelense é a chamada para reunião de cúpula americano-iraniana, organizada pelo presidente francês, Macron. Este, na reunião G7, para surpresa de todos, convidou o Ministro do Exterior do Irã, Zarif e depois anunciou um possível encontro Trump-Rouhani. Este último já declarou que só irá encontrar o Trump sob uma série de pré-condições, entre elas levantar as sanções econômicas que sufocam o país dos aiatolás.

Por sua vez, Trump antes fala, nem sempre sabendo o quê, e depois volta atrás. Assim foi com a Coreia do Norte, com o Plano do Século, que sai… agora ainda não.. agora vem… depois das eleições em Israel… e ninguém sabe quem apoiará o plano, principalmente os diretamente envolvidos: palestinos da Cisjordânia, da Faixa de Gaza, Jordânia, o Egito, o Estado de Israel.

O presidente francês Macron quer agradar o Irã e lhe mostrar a boa vontade da União Europeia, mas ao mesmo tempo reiterar que os líderes dos países industrializados concordam que têm que impedir o Irã de chegar a armamento atômico. Não seria mais fácil juntar-se ao boicote americano e aí o Irã não teria condições de investir no armamento atômico?

Na fronteira sul de Israel, o governo egípcio, que tenta ser o mediador entre o Hamas e Israel, ficou furioso com o governo do Hamas, na Faixa de Gaza, que lançou quatro morteiros em direção a Israel, enquanto delegação do Hamas estava no Cairo tentando entendimentos com o governo de Israel. Três misseis caíram na própria Faixa de Gaza e um em área desabitada, em Israel. No domingo (25), à noite, foi lançado um foguete em direção à cidade de Sderot, onde se realizava um concerto com 4.000 pessoas comemorando o fim das férias escolares. O míssil foi abatido pelo Domo de Ferro, mas houve pânico entre os milhares que estavam ao ar livre.

O governo egípcio conhece bem a organização terrorista Hamas e tenta ser seu canal com Israel, para que não ajudem os terroristas do Estado Islâmico a agirem na Península do Sinai. Há algumas semanas, o Egito humilhou o líder político do Hamas Ismail Hanie, impedindo sua saída da Faixa de Gaza para visitar o Irã, a Turquia e o Qatar, todos do Eixo do Mal para o Egito. O receio do Egito (e de Israel) é do apoio militar iraniano à ala militar do Hamas e contrabando de material bélico do Sinai a Faixa de Gaza. Este material poderia ter uso duplo. Contra Israel, mas também contra forças egípcias.

Assim é que às vezes os interesses de países amigos, nem sempre tendem ao interesse do aliado, enquanto os interesses de países que antigamente eram até inimigos convergem para o bem de ambos contra um terceiro elemento que ameaça os dois.

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