Quem é que deu o beliscão?

Por Simone Wenkert Rothstein

Nesta conversa as personagens falam sobre a importância do olhar da mãe (dos pais), e de seus sentimentos inconscientes, na formação da identidade do bebê.

Simone – Oi Tal! E aí, o que você me conta?

Tal – Simone, ontem eu fui à praia, de manhã bem cedinho, horário de bebê. E claro, tinha alguns à minha volta. Mas me chamou atenção uma situação em especial. Uma mãe reclamava com a amiga que seu bebê – de 6, 8, 10 meses, no máximo – a beliscava. Fiquei meio chocada com essa ideia. Como assim um bebê poderia estar intencionalmente beliscando alguém, beliscando a mãe?! O que você acha disso?

Simone – Na psicanálise há uma ideia muito bonita que tem a ver com a importância do olhar da mãe (ou de quem cuida) para o seu filho. Ela sugere que esse olhar funciona como um espelho e nele, o bebê encontra sua imagem refletida.

Tal – É bonito mesmo, me lembrei de um quadro em que o Narciso, da mitologia grega, olha sua imagem refletida no lago.

Simone – Muito boa associação. Inclusive o termo narcisismo vem desse mito e tem tudo a ver com a formação do nosso EU. O bebê encontra no reflexo dos olhos da mãe (ou do cuidador) referências para se organizar afetivamente, para formar sua identidade.

Tal – Explica melhor, vai.

Simone – Estamos falando do olhar, mas na verdade todas as sensações provocadas no bebê, no encontro da dupla mãe-bebê, vão participar desse processo. Além da “forma de olhar”, a forma como a mãe fala, a forma como o segura, todos estes encontros sensoriais entre mãe e filho vão dando ao filho uma noção de si e uma sensação maior ou menor de segurança. Ou seja, uma mãe que conversa com o bebê de forma suave vai produzir emoções diferentes de uma em que a mãe fala de maneira pouco vivaz, ou que tem uma fala irritada…

Tal – Quer dizer, os sentimentos da mãe vão interferir nas emoções ou na identidade do filho?

Simone – Vão sim. O acolhimento da mãe se traduz tanto nos cuidados físicos, nessas experiências sensoriais que acabamos de falar, quanto nas ideias e sentimentos que a mãe tem em relação ao bebê. E não só nos sentimentos conscientes, mas naqueles que ela não se dá conta, que são inconscientes.

Tal – Você acha que é por razões inconscientes que aquela mãe da praia estava achando que o filho dava beliscadas?

Simone – É bem provável. Não posso ter certeza, mas o que parece é que ela enxerga no filho uma hostilidade, ou um medo que é dela.

Ela pode amar o filho, cuidar dele com toda a dedicação, mas talvez, tenha algum aspecto dela agressivo ou inseguro que a faz pensar e sentir que seu filho a belisca. Ela mereceria ser beliscada? Ela tem medo de não ser gostada pelo filho?

Tal – Ih! Aí o espelho fica meio arranhado!

Simone – Sim! A forma como esse bebê da praia se vê, vai estar “arranhada” pelos sentimentos que são da mãe. E é importante que ela possa reconhecer o que é “dela”, para que seu filho não se torne um representante dos seus “fantasmas”, das suas fantasias inconscientes.

Tal – É incrível pensar que, de alguma forma, mesmo os sentimentos que os pais nem conseguem enxergar podem ser transmitidos para os filhos.

Simone – E tudo o que os pais transmitem para os filhos vai construindo a identidade deles: desde a história da família, a sua cultura, às experiências dos pais, as suas expectativas… Mas também os sentimentos inconscientes que os pais não veem, e que estão o tempo todo presentes, acabam sendo “jogados” (como o lençol do fantasma) em cima do filho, que passa a assustá-los, ou a agredi-los. E o risco é de a criança acabar “acreditando” que ela é aquilo que os pais estão enxergando nela e, no caso do bebê “besliscador” da praia, por exemplo, ir assumindo o papel do implicante da família, da criança agressiva da escola…

Tal – Não imaginava que esse processo pudesse começar tão cedo na vida!

Simone – Pois é. E se você me perguntar, quem é que dá a beliscada, o bebê ou a mãe, posso te responder que a dor do beliscão é sentida pelos dois.

Foto: pikist

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