Primórdios do Movimento Ecológico

Por Marcos L Susskind

Quando se fala de Ecologia, aparecem repetidamente alguns nomes: Gifford Pinchot, que fundou em 1903 a Public Lands Commission.

Outro é John Muir que estabeleceu o Sierra Club em 1892, mas a instituição só passa a  pressionar por política ecológica em 1905, atuando a favor do Parque de Yosemite.

Outros precursores são o grupo de ativistas que conseguiu um espaço nos Alpes Suíços para ser o primeiro Parque Nacional em 1914. Na Nova Zelândia, a Native Bird Protection Society (mais tarde Royal Forest and Bird Protection Society) foi fundada em 1923 em resposta à devastação da Ilha Kapiti pelo gado bovino, ovino e caprino.

A verdadeira preocupação ecológica, como fenômeno de massa, se dá a partir dos anos 1960 em diante, através de grupos da classe média preocupada com proteção da vida silvestre, conservação da natureza e poluição. A elas se juntam organizações científicas preocupadas com história natural e preservação biológica.

Mas há uma organização importantíssima que tem sido relegada nos compêndios da história. Trata-se do Keren Kayemet LeIsrael (KKL) , conhecido no Ocidente como Jewish National Fund (JNF).

O KKL/JNF foi fundado no 5º Congresso Sionista de 1901 na Basileia, proposto pelo matemático Prof. Dr. Zvi Herman Schapira, que também era rabino. A ideia fora lançada em 1897 (quando ele também propôs a criação de uma Universidade Judaica) porém adiada anualmente por exigência de Max Bodenheimer, que exigia um formato legal antes da criação do Fundo. Em 1901, pela 4ª vez ele pediu adiamento. Johann Kremenetzky caiu em choro profundo, comovendo os delegados. E então, em 29 de Dezembro de 1901, 19 Tevet 5638, Theodor Herzl proclamou: “O Keren Kayemet LeIsrael foi criado”.

Johann Kremenetzky foi seu primeiro Diretor e iniciou imediatamente a busca de contribuições, estabelecendo os cofrinhos Azul e Branco, o Livro de Ouro e a campanha de selos. Com estes fundos, o KKL começou a adquirir terras na Galileia e na Judeia. O segundo Diretor Geral do KKL foi o Dr. Max Bodenheimer.

O KKL entendeu muito cedo que o reflorestamento era uma necessidade premente na Palestina (nome refutado pelos árabes. Estes afirmavam que eram cidadãos da Síria do Sul e que o nome “palestinos” deveria ser aplicado exclusivamente aos judeus). Para tanto, o KKL plantou a primeira floresta em Ben Shemen, dando a ela o nome de Theodor Herzl.

A plantação de florestas foi um trabalho hercúleo dado o solo de pedra, a falta de água, as chuvas restritas a 50 dias/ano e em baixa quantidade. Ainda assim, em 1935 já haviam sido plantadas 1.700.000 árvores em cerca de 8 km2. Em paralelo o KKL se preocupou em drenar pântanos.

Mas por que o KKL fez isto? São múltiplas as respostas, mas desde o início da colonização judaica em Israel, entendeu-se que o reflorestamento traria consigo imensos benefícios: as florestas plantadas pelo KKL/JNF ajudam o meio ambiente pois as árvores preservam o solo e evitam a erosão, moderam a pressão de radiação e criam uma sombra e microclima confortáveis, evitam processos de desertificação nas bordas de áreas áridas, protegem contra poeira e poluentes e, claro, contribuem com a ecologia. Plantar árvores é a principal forma de reduzir a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera e, assim, reduzir o aquecimento global, retendo o Carbono e liberando oxigênio.

Árvores e sombra atraem pássaros e abelhas com a consequente polinização, redução da temperatura. A plantação de árvores permite o cultivo no entorno das florestas ajudando a conquista do deserto. Israel, que já fora 75% desértico conseguiu reverter muita área e hoje apenas 50% ainda é deserto e as fronteiras do deserto são “empurradas” continuamente.

O KKL também percebeu que o plantio de florestas diminuía a movimentação das dunas de areia, aumentando a proteção das áreas urbanas e as agricultáveis. Com o tempo o KKL passou também a plantar parques urbanos que embelezam as cidades, permitem atividades de lazer e diminuem a temperatura ambiente.

O KKL plantou em 50 anos um total de 260.000.000 de árvores, fazendo de Israel o único país no mundo que entrou no Século XXI com mais árvores do que tinha na entrada do Século XX. Também criou mais de 1000 parques urbanos, construiu 200 reservatórios de água e planeja mais 30 em cinco anos.

O plantio de florestas é sempre em áreas onde não se consegue agricultura econômica e onde o risco de degradação ambiental é alto, em áreas semiáridas ou montanhosas.

Nem sempre é fácil. No entorno de Jerusalém apenas quatro de cada 10 árvores vingam, mas no resto do país há 95% de sucesso.

Em 2009, o KKL começou a colaborar com a Autoridade Palestina no plantio de parque público na cidade de Rawabi, ao norte de Ramallah. O KKL entregou à Autoridade Palestina 3.000 mudas de árvores. Infelizmente, em 2019, a Autoridade Palestina resolveu encerrar todos os contatos com organizações israelenses e com isto o projeto de novas florestas na região da Palestina encontra-se em ritmo dormente.

O KKL pode e deve ser lembrado com uma das primeiras e mais duradouras entidades ecológicas da história.

O autor agradece a Alberto T. Simantob que sugeriu tema de hoje.

Foto: Keren Kayemet LeIsrael (via Wikimedia Commons)

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