Sempre alerta

Por Nelson Menda

Durante a adolescência fiz parte do Grupo Escoteiro Bento Gonçalves. Nossa sede estava localizada em um pequeno porão cedido pela direção do Grupo Escolar Duque de Caxias, na Rua da Azenha, em Porto Alegre.

Apesar de pequeno, nosso grupo era bastante ativo e tomava parte em todas as solenidades cívicas, com destaque para a Semana da Pátria. Naquela ocasião os escoteiros eram incumbidos de distribuir, por diferentes estabelecimentos escolares de Porto Alegre, o fogo oriundo da “Pira da Pátria”, monumento localizado no Parque da Redenção. Era uma honra poder participar daquela festividade cívica, em que os escolhidos desfilavam em um jipe do exército portando um dispositivo que deveria manter acesa a chama do fogo pátrio por exatos sete dias.

Fui indicado, em uma determinada ocasião, a participar daquele evento solene. Recordo da emoção com que vesti meu uniforme de escoteiro, que incluía uma peça de indumentária que provocava muita celeuma entre os jovens, por se tratar das calças curtas. Parece brincadeira, mas havia uma espécie de “rito de passagem”, ocasião em que os meninos deixavam de utilizar calças curtas e passavam a se apresentar com calças compridas. Era um sinal inequívoco de que já não eram mais crianças.

Por falar em escotismo, é importante ressaltar que o movimento foi criado por Baden Powell, um inglês que participou do pouco elogiável processo de colonização da África. Os povos oriundos daquele continente tinham sido escravizados e eram tratados como cidadãos, não de segunda, mas de quinta categoria, pelos colonizadores europeus, dentre eles ingleses, franceses, holandeses e belgas. Esses últimos se notabilizaram pela crueldade e selvageria com que tratavam os nativos da região. Visando utilizar os préstimos dos jovens ingleses como força auxiliar na sangrenta guerra travada contra os Boers, como os colonos holandeses da África eram denominados, Baden Powell tomou a iniciativa de convocá-los para a prestação de serviços auxiliares. Nada a ver, portanto, com os elevados princípios morais apregoados pelo escotismo mundo afora, especialmente no sul do Brasil, onde este escriba desfilava, em um jipe aberto, orgulhosamente carregando a chama do fogo pátrio naquele longínquo sete de setembro de 1957.

Não posso me queixar do escotismo, onde aprendi muita coisa útil, como a escolha e preparação do terreno para a montagem das barracas, a maneira correta de percorrer uma estrada, o reconhecimento das fontes de água apropriadas para o consumo, técnicas de amarração com a utilização de nós, em que o chamado “volta do fiel” era o mais resistente e confiável de todos. Aprendi, também, a elaborar e identificar os denominados “sinais de pista”, que permitiam enviar e receber mensagens cifradas utilizando os recursos disponíveis na própria natureza. Além do útil aprendizado a respeito de como se orientar pelos Pontos Cardeais – Norte, Sul, Leste, Oeste – imprescindível para evitar a desorientação no meio da floresta, entre tantos outros ensinamentos úteis.

Meu primo Solon, unha e carne comigo, tinha ingressado no Grupo Escoteiro Tapuias, onde conheceu sua futura esposa, uma “bandeirante”, como as moças adeptas do escotismo eram denominadas. Os escoteiros eram divididos por idade, em que os mais jovens eram denominados lobinhos. Já os garotos maiores eram classificados, conforme a faixa etária, em juniors e seniors. Uma obra do escritor inglês Rudyard Kipling, “O Menino Lobo”, que abordava a história de uma criança abandonada na selva e criada por lobos, serviu de inspiração para o desenvolvimento dessa divisão por idade. O que aprendi no escotismo foi de enorme utilidade em toda minha vida, além de ter permitido ampliar meu círculo de relações, com amizades que perduraram por muitos anos.

Todavia, nem tudo foi um mar de rosa no período em que passei no escotismo. Os primeiros espinhos despontaram quando uma professora do Grupo Escolar onde mantínhamos nossa diminuta sede, no bairro da Azenha, decidiu reivindicar o espaço, sabe-se lá para o quê. Provavelmente, para nada, somente pelo prazer egoístico de nos desalojar. Era um porão tão minúsculo que só se podia andar meio encurvado, mas a desmancha prazeres insistiu tanto que tivemos de encontrar, a toque de caixa, uma outra sede, preferencialmente no bairro onde residia a maior parte dos componentes do grupo.

Como o Grêmio, um dos dois maiores times de futebol do estado, estava construindo seu novo estádio na Azenha, talvez fosse possível solicitar um espaço na parte inferior das arquibancadas. A direção do Grupo Escoteiro entrou em contato com a Diretoria do Grêmio e, após uma rápida negociação, conseguiu o almejado espaço, a custo zero. Mas aí surgiu um problema aparentemente insolúvel. A maioria dos escoteiros era formada por colorados, ou seja, simpatizantes do Sport Clube Internacional, arquirrival do Grêmio Futebol Porto-Alegrense. Como escoteiros do Grêmio, teríamos de utilizar, à volta do pescoço, um lenço com as cores do time adversário, azul e preto, ao contrário do vermelho do nosso escrete do coração. Tivemos de ceder, mas foi o começo do fim da minha vivência no escotismo.

O Grupo Escoteiro Bento Gonçalves, cuja denominação presta homenagem ao herói da Revolução Farroupilha, existe até hoje, só que em outra sede e, obviamente, com novos componentes. Com a mudança para o Grêmio nossa paixão pelo escotismo nunca mais foi a mesma, pois tínhamos de ocultar, sob o lenço do Grêmio, nosso amor pelo Colorado. Todavia, devo confessar que passei muitos bons momentos durante o tempo em que frequentei os escoteiros. Verdade seja dita, apesar de ter me distanciado do meu torrão natal há várias décadas, o Rio Grande do Sul nunca me deixou, pois volta e meia sou assombrado por memórias, geralmente boas, daquele tempo em que morava em Porto Alegre. Dentre elas, as dos acampamentos escoteiros, com seus memoráveis “fogos de conselho”, onde entoávamos, de braços dados, o inesquecível refrão: “Um por todos, todos por um. Uma vez escoteiro, sempre escoteiro”. Já se passaram várias décadas, mas é forçoso reconhecer que foi um período muito, mas muito legal mesmo, da minha vida.

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