Memoriais do Holocausto

Por Nelson Menda

Dentre os inúmeros Memoriais do Holocausto existentes nos Estados Unidos gostaria de mencionar dois que me emocionaram bastante. Um deles, em Miami Beach, exibe a imagem de mãos que se erguem para o alto, em desespero, à espera de um milagre que acabou não acontecendo.

O outro, aqui em Portland, Oregon, situado no interior de um cerrado bosque de pinheiros nativos, exibe imagens de diferentes objetos abandonados, entre as árvores, onde se incluem malas, bonecas e até mesmo um par de óculos. Para um visitante desavisado, pode dar a impressão de que algum excursionista descuidado passou pelo local e foi perdendo esses objetos pelo trajeto. Ao seguir a trilha, todavia, é possível desfazer a surpresa, ao avistar, em uma ampla clareira, um maciço bloco de pedra natural onde estão inscritos, um a um, os nomes dos seis milhões de judeus assassinados pelos nazistas. A mala é uma clara alegoria à farsa montada pelos assassinos para enganar as vítimas, dando a entender que estariam indo não para um campo de morte, mas sim viajando para um lugar seguro.

Até hoje o mundo se questiona como teria sido possível executar um projeto tão monstruoso. Em cada um desses memoriais é natural que os visitantes procurem identificar, pelos sobrenomes, possíveis parentes. Até uma das minhas filhas visitar o Yad Vashem, o Museu do Holocausto, em Israel, eu vivia com a ilusão de que meus ancestrais teriam sido poupados daquele morticínio insano. Ledo engano, pois alguns parentes que viviam em Salônica, na Grécia, foram presos, deportados e assassinados no campo de concentração de Auschwitz. Dentre eles, um jovem casal com seus dois filhos ainda pequenos. O Yad Vashém forneceu, além dos dados biográficos dessas vítimas, suas fotos. Era perceptível a semelhança fisionômica entre eles e os membros da minha próxima família.

A tragédia que se abateu sobre a coletividade judaica sefaradi da Grécia teve lances ainda mais trágicos do que a ocorrida com as comunidades asquenazis da Europa Central. As lideranças religiosas de Salônica, considerada a pérola das comunidades judaicas do Mediterrâneo, sabiam que os nazistas estavam se preparando para eliminar os israelitas da face da terra. É doloroso reconhecer que alguns líderes religiosos de Salônica, também conhecida como Thessalônica ou, simplesmente, Salonik, poderiam, pelo menos, ter tentado evitar o morticínio. Todavia, além de não ter se mobilizado para salvar as vidas de seus correligionários, ainda colaboraram, de forma indireta, com os assassinos. Tudo em troca da falsa promessa de que eles e seus familiares seriam poupados. Ainda se prestaram a organizar sessões cinematográficas onde eram exibidas falsas películas que mostravam imagens de belos condomínios residenciais e fornecerem, aos nazistas, listas com os nomes e endereços de membros da comunidade. Alguns poucos jovens, que conseguiram obter informações a respeito do que estava, de fato, acontecendo, foram admoestados pelas lideranças comunitárias, como se estivessem divulgando notícias alarmistas.

A destruição da mais representativa comunidade judaica de todo o Mediterrâneo, em questão de poucos dias, é considerada uma das grandes tragédias da coletividade judaica em geral e sefaradi em particular. Os trens de carga saíam sobrecarregados de prisioneiros gregos, para despejá-los no campo de concentração de Auschwitz, onde a morte os aguardava. Os prisioneiros mais jovens do sexo masculino eram selecionados para trabalhar nos fornos crematórios, recolhendo e empilhando cadáveres. Os guardas nazistas se valiam da barreira linguística existente entre as coletividades judaicas asquenazi e sefaradi, o que as impedia de relatar o que estava acontecendo no interior do campo.

Meus primos gregos eram naturais de Lárissa, distante 160 Km de Salônica. Conseguiram saber o que estava ocorrendo, buscando refúgio em aldeias isoladas das regiões montanhosas da Grécia, onde passaram a se vestir e trabalhar como agricultores nativos. Graças a isso, conseguiram sobreviver à guerra e, ao escrever aos familiares que residiam em Porto Alegre, por intermédio do meu pai, obter uma “Carta de Chamada”, documento que permitiu sua entrada oficial no Brasil.

Era uma família constituída por um casal e três filhos homens, já adultos, que foi residir no Passo da Areia, subúrbio de Porto Alegre. Os homens trabalhavam de sol a sol, como serralheiros, procurando, como todo imigrante, estabelecer seu pé de meia. Abriram sua primeira empresa, batizada, pelo meu pai, de “Arte Grega”, nome conservado até os tempos atuais. De serralheiros e funileiros, a empresa foi evoluindo, aos poucos, para a produção de caixas d’água e calhas de fibrocimento, construção civil, hotelaria, shopping-centers, vinicultura e grandes projetos de reflorestamento no Rio Grande do Sul. Atualmente, é um dos mais destacados grupos empresariais do Sul do Brasil.

Analisando friamente, até hoje me questiono a razão dos meus ancestrais terem conseguido sobreviver tanto à Inquisição quanto ao Holocausto, duas das mais terríveis perseguições engendradas pelo pior que o gênero humano conseguiu produzir. Ao mesmo tempo, chega a ser surpreendente a existência de pessoas que negam tanto uma quanto outra tragédia. Como também choca constatar a admiração que grupos nazistas e neonazistas ainda exercem sobre uma parte, felizmente minoritária, da população. Por que será que é tão difícil, para certos indivíduos, abrir os olhos e enxergar a realidade?

Foto: EncMstr, CC BY-SA 3.0 (Wikimedia Commons). Memorial do Holocausto Memorial, Washington Park, Portland

2 thoughts on “Memoriais do Holocausto

  • 3 de junho de 2022 em 22:51
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    Genial Nelson.
    Deste ênfase à memória. Com ela podemos saber do tempo presente e de um futuro próximo. Além de ter o conhecimento dos fatos passados.
    Bela escrita.

  • 4 de junho de 2022 em 05:26
    Permalink

    Obrigado, prima

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