Negócios de família

Por Nelson Menda

Meu pai era um empreendedor nato. Apesar de ter dedicado grande parte da sua vida ao exaustivo trabalho de contador, em uma época em que os livros eram escriturados à mão, sempre procurou diversificar sua rotina de trabalho.

Todavia, na maior parte das vezes esses novos negócios só lhe trouxeram prejuízos e dores de cabeça. Como dispunha de pouco tempo livre, pois o escritório de contabilidade era bastante movimentado, andava à cata de sócios para seus novos projetos. Um desses negócios acarretou um grande prejuízo, que ele fazia questão de lembrar de forma bem humorada, pois o que restou do empreendimento não passava de um simples martelo. Não um martelo convencional, de carpinteiro, mas sim de sapateiro, que ele apregoava, de forma irônica, ter custado a bagatela de “quarenta contos de réis”. Essa pequena fortuna correspondia a quarenta mil reais, um valor considerável para a época.

Ele e o sócio, também natural da Turquia, tinham decidido montar uma fábrica de calçados femininos. Adquiriram todo o maquinário para o empreendimento, que foi instalado nos fundos da nossa casa, na Rua Demétrio Ribeiro, em Porto Alegre. Eu devia ser muito pequeno, pois não lembro do funcionamento dessa autêntica indústria de “fundo de quintal” na real acepção da palavra. Já maiorzinho, quando comecei a me aventurar pelo amplo pátio da casa, fui descobrindo, aos poucos, aparas de couro enterradas no solo.

Ao visitar a loja do meu tio Michel, no Passo da Areia, conheci um espaço reservado para a exposição e venda desses calçados, das marcas Bijou e Duquesa, de nossa fabricação. Nessa ocasião entendi a causa do insucesso do empreendimento calçadista. Eram sapatos modelados pelo sócio do meu pai, que tinha trazido as formas e desenhos de Istambul, onde tinha aprendido o ofício e exercido a profissão de sapateiro. Talvez os modelos fizessem sucesso na Turquia de antigamente, mas eram inteiramente inadequados para o mercado brasileiro. Lembravam o estilo “cheguei”, em cores e desenhos chamativos, que agradariam uma atriz como Carmem Miranda ou as próprias drag queens do presente. Eram, verdade seja dita, muito bem confeccionados, mas tremendamente espalhafatosos e inteiramente inadequados para uma cidade provinciana e conservadora como a Porto Alegre do século passado. O estoque encalhou, pois mesmo o público do Passo da Areia que fazia suas compras na Casa Michel, sociedade do meu pai com um dos cunhados, não estava preparado para adquirir e desfilar com aqueles sapatos de modelos e cores extravagantes.

Meu pai amargou um baita prejuízo, que precisou ser coberto pela extenuante atividade no escritório de contabilidade. Nunca se queixou do sócio que, além de seu fraterno amigo, era um dos dirigentes do Centro Hebraico, a Sinagoga dos Sefaradis porto-alegrenses.

Foi esse simpático senhor que me preparou para o Bar-Mitzva, a maioridade judaica, quando os rapazes completam 13 anos. Durante um ano inteiro, pegava o bonde Gasômetro e ia até sua casa, no Bom-Fim, estudar hebraico. A duras penas consegui aprender a ler e entoar as rezas com a musicalidade praticada na Turquia e demais países orientais. Foi uma trabalheira exaustiva e meu desempenho, durante a cerimônia religiosa, em que vesti uma “fatiota”, coloquei um talit sobre os ombros e um kipá (solidéu) na cabeça, encheu meus pais de orgulho e satisfação. Aprendi a ler, a escrever e a rezar em hebraico, mas sem entender o que estava sendo recitado. O importante, todavia, era o desempenho durante a cerimônia, em que um Sefer Torá permanecia aberto sobre o púlpito, denominado bimá.

Quanto aos negócios do meu pai, não foram suficientes para desestimulá-lo, pois corria em suas veias o sangue do empreendedorismo. Durante a Segunda Guerra – 1939/1945 – era praticamente impossível encontrar um receptor de rádio à venda no Brasil. Nosso país não possuía indústrias de eletrônicos e a produção norte-americana estava inteiramente voltada para o esforço bélico. Havia uma enorme escassez de rádios e meu pai imaginou que, ao término do conflito, haveria espaço para a comercialização desses aparelhos. Não sei ao certo se importou ou adquiriu, por antecipação, uma infinidade de receptores de rádio. O problema é que muitos varejistas tiveram a mesmíssima ideia e o mercado, findo o conflito, ficou com as prateleiras abarrotadas por esses equipamentos. Com a venda dos rádio-receptores encalhada, lembro que acabamos por dispor, na nossa casa, não de um, mas sete equipamentos radiofônicos distintos. Inclusive um deles, moderníssimo, de ondas médias e curtas.

A televisão ainda não tinha chegado a Porto Alegre e o possante rádio era uma peça de destaque na decoração da sala. Esse receptor dispunha do chamado “olho mágico”, que nada mais era do que uma espécie de visor esverdeado que ajudava a sintonizar cada uma das emissoras que queríamos escutar. Não tinha muita utilidade prática porque a capital gaúcha, na época, só dispunha de três emissoras radiofônicas. Esse aparelho acabou se transformando em uma das atrações da casa, posicionado em lugar de destaque na sala de visitas. Permitia sintonizar, geralmente à noite, estações do Uruguai e Argentina, além das emissoras locais, Farroupilha, Difusora e Gaúcha.

O relevo plano entre Porto Alegre e as capitais dos países vizinhos possibilitava uma recepção quase perfeita dessas transmissões internacionais. Eu e minha irmã mais velha tínhamos permissão de sintonizar qualquer emissora até às 21 horas, quando deveríamos ir para a cama. Todavia, existia uma exceção. Era um programa aterrador, transmitido às sextas-feiras à noite, com o sugestivo nome de “Entre o Céu e a Terra”. Tratava de mistérios e assombrações, como lobisomens, almas penadas e coisas do gênero. Às crianças era recomendado não assisti-los, para não interferir com o sono. Exatamente por ser proibido era a primeira que coisa que fazíamos assim que nossos pais saíam para visitar algum parente. Geralmente nossa avó materna, fissurada em rádio, compartilhava dessas sessões radiofônicas sem entender muito bem do que se tratava, pois ela costumava, como se dizia popularmente, “misturar as estações”. O programa era sonorizado por um fundo musical aterrador, Spellbound, cujos acordes, até hoje, me provocam calafrios. Posso estar enganado, mas acredito que, mesmo em tempos mais recentes, a garotada e muitos adultos curtem esse gênero, haja vista o sucesso do “Bebê de Rosemary” e as séries horripilantes de “Freddy Krueger” e tantos outros filmes de terror.

Quanto aos demais negócios mal sucedidos do meu pai poderia mencionar uma fábrica de cerâmicas e, pasme, até mesmo uma barbearia. Acredito que ele entrou nesses empreendimentos mais para ajudar algum amigo, pois onde ele fez seu pé de meia foi no escritório de contabilidade e em alguns investimentos imobiliários bem sucedidos. Nessa última atividade, chegou a erguer alguns edifícios residenciais na capital gaúcha, cujos apartamentos deveriam ser alugados e render o suficiente para uma velhice tranquila. Ele e muitos outros empreendedores só não contavam com a famigerada “Lei do Inquilinato”, uma iniciativa demagógica do governo que congelava os aluguéis e liberava as taxas e os impostos.

Como também não contava com a enfermidade que ceifou sua vida precocemente, justo na ocasião em que poderia usufruir, merecidamente, o produto de seus anos de dedicação aos estudos e ao trabalho. Após seu falecimento, tivemos de enfrentar tempos difíceis, felizmente superados. Mas é forçoso reconhecer que ele foi um pai extremamente dedicado à família e também à grande sociedade. Foi dele e de um grupo de voluntários a iniciativa de fundar uma entidade, a Associação Liga de Amparo aos Necessitados, que vem funcionando ininterruptamente desde os anos 60, com a missão de apoiar pessoas de menos recursos a superar suas limitações e a ingressar, pela porta da frente, no mundo profissional. Sua vida é um exemplo a ser seguido.

Foto: fsHH (Pixabay)