Saco de gatos

Por Nelson Menda

Tive uma infância, em Porto Alegre, rodeado por amigos, primos e bichos. A coletividade sefaradi gaúcha, ao contrário da asquenazi, que residia, majoritariamente, no Bom Fim, tinha se estabelecido na Cidade Baixa, próxima ao Centro. Morávamos não muito distantes do Kal, única sinagoga sefaradi de Porto Alegre.

Fazendo um parêntesis, é importante frisar que essa é uma característica dos judeus de origem ibérica e oriental, que sempre procuraram proximidade com o poder. E o poder, em Porto Alegre, estava localizado no entorno da Praça da Matriz, onde ficavam o Palácio Piratini, sede do governo estadual, a Assembleia Legislativa, o Fórum e a Catedral Metropolitana.

Durante as cerimônias religiosas do dia mais importante para o judaísmo, o Yom Kipur, era comum que os oficiantes realizassem uma homenagem ao Governador do Estado, que costumava comparecer às diferentes sinagogas da capital gaúcha. Era uma prática que se repetia, todos os anos, não só em Porto Alegre, como também em grande parte das demais capitais do Brasil.

Nesse particular, as coletividades judaicas sempre procuraram manter a melhor relação possível com os governantes, desde a Espanha e Portugal do período pré-inquisitorial assim como no poderoso Império Otomano. Em Istambul, o Haham Bashi (Rabino-Chefe) ocupava um trono ao lado do Sultão, obviamente menor que o do soberano.

Existe, até, um fato pitoresco a respeito dessa reverência às autoridades dos países onde os judeus viveram. Certo dia, alguém teve a curiosidade em tentar desvendar o nome de uma nação mencionada em muitas pregações rabínicas, pois era inteiramente desconhecido pelo público presente à sinagoga. Ninguém soube responder, pois deveria ser um país que tinha mudado de nome ou, simplesmente, deixado de existir, mas a tradição secular era mantida.

Voltando à saga familiar é importante mencionar que meus avós paternos se estabeleceram, assim que chegaram ao Brasil, na Rua Coronel Fernando Machado, quase ao lado da Rua Espírito Santo, que fazia esquina com a Catedral e a Cúria Metropolitana. Porto Alegre, para quem ainda não conhece, tem uma topografia bastante variada, por estar situada em um promontório que se projeta para uma vasta bacia fluvial, que já foi chamada de Rio Guaíba, mas que agora, para desencanto dos saudosistas, passou a ser denominado Lago. A cidade possui um relevo montanhoso e suas elevações são denominadas morros ou lombas. Nos fundos da casa dos meus avós existia uma ladeira íngreme, que ia da Cidade Baixa até à Rua Duque de Caxias, na parte mais elevada do Centro. No topo dessa elevação estava localizado o Colégio Anchieta, dos padres jesuítas. Ligando os fundos dessa escola e o da casa dos meus avós paternos havia um imenso terreno baldio.

Baldio mas não desabitado, pois era povoado por uma legião de gatos de rua, selvagens, de diferentes cores e tamanhos. Certo dia eu e meu primo Davi, que morava na mesma rua Fernando Machado onde estava situado o Kal, a Sinagoga Sefaradi de Porto Alegre, e também a casa da Vó Maria. Ela precisou sair e deixou os dois pirralhos, que deveriam ter 8 ou 9 anos, “tomando conta” da sua residência. Foi uma temeridade pois, em sinal de agradecimento, decidimos preparar-lhe o que nos pareceu ser uma agradável surpresa. Utilizando um caixote de madeira, criamos uma armadilha com a intenção de aprisionar alguns gatos que vagavam soltos pelo terreno dos fundos. Algo bem primitivo, constituído por um caixote aberto, sustentado por um pedaço de madeira, em cujo interior colocamos um naco de carne para atrair os bichanos. Assim que algum gato entrasse, puxaríamos um barbante e o animal ficaria preso em seu interior. Para nossa sorte – ou azar – a armadilha funcionou e conseguimos capturar uma boa quantidade de gatos. Os bichos, à medida que eram aprisionados, iam sendo transferidos para o interior da casa, onde miavam sem parar, querendo fugir. Além disso, urinavam e defecavam, talvez por medo da inusitada situação. Assim que o estoque de felinos já estava de bom tamanho a porta se abriu e adentrou à casa uma avó cuja fisionomia, até então, desconhecíamos. Ao invés daquela criatura gentil e carinhosa, vimos uma senhora irritada que, quando contemplou aquele cenário desolador, se deu conta do que tínhamos aprontado. Eu e o Davi, crentes que tínhamos preparado uma boa surpresa, levamos uma merecida bronca e a ordem de botar para fora, o mais rapidamente possível, aquela enorme legião de gatos. Juntamente com os assustados animais, fomos instados a nos retirar, para que ela pudesse limpar a sujeira que eles tinham deixado. Não recordo se ela fez queixa para nossos pais, pois não levei bronca alguma quando cheguei em casa, a uma quadra dali.

Nunca fui muito fã de gatos, que além de nos arranhar com suas afiadas unhas perturbavam o sono de quem morava, como nós à época, em casas de um ou dois pavimentos. Custei a entender as misteriosas razões que os faziam produzir aqueles lamurientos sons noturnos que, além de garantir a perpetuação da espécie, só serviam para atrapalhar o sono da vizinhança. Depois fiquei sabendo que aqueles lamentos faziam parte do ritual de acasalamento dos felinos, em que as fêmeas eram agredidas pelos machos durante o ato sexual, em uma autêntica orgia sadomasoquista.

Atualmente, pelo menos aqui na região dos Estados Unidos em que estou residindo, é praticamente impossível alguém se deparar com um gato de rua. Os bichanos são adotados e recebem todas as atenções e mordomias de seus proprietários. É comum que gatos e cães, que viviam às turras no meu tempo de criança, coexistam em ambiente de completa harmonia, muitas vezes compartilhando suas caminhas e brinquedos. Seria um bom exemplo para os seres humanos.

Foto: Ivan Radic, CC BY 2.0(Flickr)

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