Ufanismo verde-amarelo

Por Nelson Menda

Nada como uma eleição presidencial norte-americana para nos orgulharmos da condição de brasileiros. Enquanto, aqui nos Estados Unidos, as cédulas são contadas manualmente, em Pindorama, mal termina a votação e as maquininhas fornecem os resultados praticamente na hora. São poucos fusos horários de diferença entre o Território de Fernando de Noronha, a Leste, e os confins do Acre, no extremo Oeste. Assim, com um pequeno intervalo de 3 horas já se sabe quem ganhou e quem perdeu uma eleição. Por outro lado, se existem motivos de sobra para nos orgulharmos do processo de apuração no Brasil, temos de reconhecer a baixíssima qualidade de algumas pessoas escolhidas para nos representar, tanto nas Câmaras de Vereadores dos quase seis mil municípios do país, quanto nas Assembleias Legislativas dos Estados, assim como a Câmara e o Senado da República. Mas será que sempre foi assim?

Lembro das primeiras vezes em que me interessei por eleições, lá pelos anos 50 do século passado. As ruas se enchiam de “santinhos”, como eram denominadas as cédulas eleitorais. Os candidatos à Presidência eram Getúlio Vargas, apelidado de Seu Gegê, que tinha sido apeado do poder em 1945 e estava retornando nos braços do povo, apoiado pelo PTB e PSD, partidos que tinham sido criados, espertamente, por ele próprio. O candidato da oposição era o Brigadeiro Eduardo Gomes, que concorria pela UDN e havia um azarão, Cristiano Machado, que foi – ou teria sido – abandonado pelos correligionários em plena campanha, que se bandearam, em massa, para Getúlio. Que acabou vencendo o pleito de 1950 para se suicidar, quatro anos depois, lançando o país em uma baita crise.

Desculpem se cometi alguma incorreção ou erro, pois me baseei nos fatos que retinha na memória de um guri de 8 ou 9 anos. Eu e meus amigos, apesar de não votarmos, apoiávamos um ou outro candidato, geralmente seguindo a orientação politica dos próprios pais. Além da profusão de cédulas espalhadas pelas ruas de Porto Alegre, fazíamos questão de entoar as melodias destinadas a glorificar uma ou outra candidatura.

Lembro de uma paródia da canção hispana “Dos Almas”, então na moda, que as rádios Farroupilha, Difusora e Gaúcha irradiavam a todo momento, cujo estribilho era mais ou menos assim: “Dos almas que se amavam, Getúlio e Brigadeiro” “Dos almas que se odiavam, Cristiano e Mangabeira”. Não tinha muita relação com o quadro político-partidário do momento, mas o importante era a rima, que agradou em cheio ao pessoal da minha geração.

Outra musiquinha que conquistou simpatizantes mencionava uma prática corriqueira nos regimes ditatoriais, tanto no Brasil de Vargas quanto no Cazaquistão de Borat e que consistia no bota-tira retrato das paredes. Em Pindorama a marchinha “Bota o Retrato do Velho” acabou virando sucesso de Carnaval. Mal sabíamos que, naquele emblemático 1950, o país estava saindo de um regime ditatorial de quinze longos anos que flertou a sério com o nazi-fascismo, implantou uma rigorosa censura, perseguiu seus opositores e só se aproximou dos países democráticos pela obstinação e persistência de um grande brasileiro, o gaúcho Oswaldo Aranha.

Os momentos finais da disputa entre Biden e Trump ficaram parecidos com os de uma luta livre em que um dos lados usou e abusou de golpes baixos. A demora na apuração dos resultados, além de representar um balde de água fria na cabeça dos mais exaltados, evidencia o cuidado com que as juntas eleitorais de cada estado contam e recontam os votos, um a um, sinal inequívoco de que o método de apuração utilizado por aqui, apesar de confiável, está mais do que obsoleto.

Nesse particular, apesar do baixo nível de grande parte da atual representação política brasileira, nosso torrão natal demonstrou competência e maturidade ao desenvolver essa simpática maquininha de registrar votos e apurar os resultados das eleições em tempo real. É uma pena que essa fantástica evolução tecnológica não tenha sido acompanhada pela melhoria da qualidade, tanto dos candidatos quanto dos eleitos, que parecem se superar, a cada pleito, em despreparo e desrespeito à coisa pública.

Foto: Antonio Augusto/ASCOM/TSE

4 thoughts on “Ufanismo verde-amarelo

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  • 12 de novembro de 2020 em 18:02
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    Meu caro primo Nelson. Ao longo dos anos muitas de nossas ideias seguiam pelo mesmo caminho, talvez por sermos xarás, por atavismo, não importa… Desta vez, se me permites, como bom “democrata” que és, vou discordar do teu artigo. O ufanismo que apregoas sobre as urnas eletrônicas não é tão difundido assim. Pelo contrário, há muita resistência. Eu mesmo escrevi um artigo em 2006, publicado em Zero Hora, sob o título “As urnas eletrônicas e a zerézima”, que causou um debate imenso durante a semana. Passados 14 anos, cada vez mais se “fala mal” das urnas, haja vista que quem comanda o processo, simplesmente se recusa a implantar uma sistemática que pudesse confrontar os resultados apregoados com a vontade do eleitor. O sistema manual americano, por mais arcaico que seja, pode posteriormente ser revisto, recontado. Já o sistema brasileiro, todos temos que acatar o resultado que nos apresentarem, sem contestação. Para encerrar – poderia escrever páginas e páginas se tivesse espaço – uma frase sobre eleições atribuída ao tirano Joseph Stalin: “O que importa não é quem vence, e sim quem conta os votos.”

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  • 12 de novembro de 2020 em 21:47
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    Oi, Davi. Talvez a solução seja uma sistema misto, que associe as maquininha às cédulas impressas. Muita água já passou por debaixo da ponte depois que esses artefatos eletrônicos foram criados e popularizados, mas não devemos nos esquecer do “Caso Proconsult”, aí em Pindorama, que só foi descoberto porque os espertos exageraram na dose. Por outro lado, de que adianta dispor de um sistema 100% correto de apuração quando a totalidade dos candidatos não inspira confiança? Sinceramente, como assegurava o poeta, quando tudo parece perdido, “só resta dançar um tango argentino”.

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  • 18 de novembro de 2020 em 02:03
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    Sou do tempo em que, no dia da eleição, o mesário entregava ao eleitor um envelope vazio para o depósito dos seus votos (papéizinhos com os nomes impressos dos candidatos) a ser efetuado na cabine indevassável. Os votos eram individuais. Se você desejasse votar no presidente, vice-presidente, senador, governador, prefeito, deputado federal, deputado estadual, vereador, teria que colocar na urna 8 votos, fechar o envelope e depositá-lo na urna. A apuração era complicada porque muita gente depositava mais de um voto de seu candidato, além é claro, de piadinhas, desenhos, declarações. Quando inventaram a cédula única, melhorou muito. Agora é a glória!
    Consegui um emprego de “distribuidor de votos” do PL (Partido Libertador). Diáriamente eu me dirigia à sede do PL, no Largo dos Medeiros, e recebia uma caixa de votos e 5 cruzeiros. Saía a distribuir, colocando um punhado de votos em cada porta. Num edifício, dava para matar a caixa toda. Vi colegas despejarem a caixa no bueiro mais próximo! No dia da eleição, me levaram de carro para a esquina da rua Cristóvam Colombo com a Dr. Timóteo, na Floresta. Me entregaram uma caixa enorme de votos e uma mesinha precária com a seguinte recomendação: “não precisa devolver”. No final do dia, passaram para me recolher e me entregaram 15 cruzeiros.

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