Agruras de um forasteiro

Por Nelson Menda

Já perdi a conta do número de mudanças de endereço que tive de realizar nesta vida. Todavia, gostaria de relatar as agruras e dificuldades que passei, lá se vão algumas décadas, quando me transferi, depois de concluída a Faculdade, do meu nativo Rio Grande do Sul para a então Cidade Maravilhosa. Eu era – e ainda sou – apaixonado pelo Rio e meu sonho, depois de enfrentar seis longos anos de marasmo na enfadonha Santa Maria da Boca do Monte, era poder curtir uma aguardada e merecida recompensa por aquele enorme sacrifício.

De cara, estranhei o calorão do Rio, pois cheguei à cidade no mês de janeiro, ou seja, em pleno verão. O alojamento do Hospital Pedro Ernesto, em Vila Isabel, onde me hospedei assim que desembarquei no Rio, não dispunha de ar-condicionado ou um simples ventilador e o quarto, sem brincadeira, mais parecia uma chocadeira de tão quente.  Impossível, portanto, conciliar o sono, à noite.

Decidi abrir mão da hospedagem propiciada pela Residência Médica e sair atrás de outra, de preferência mais próxima da praia. Dei sorte, pois encontrei, em um pequeno anúncio no Jornal do Brasil, alguém que procurava um roomate para dividir as despesas de um apartamento na Visconde de Pirajá.  Nunca soube direito quem teria sido esse Visconde, mas a rua com o seu nome era a principal via do comércio de Ipanema, bairro da moda, em função do recente lançamento, à época, da melodia que acabou imortalizando Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

Apartamento simpático, de fundos, com uma nesga de vista para o mar, pois as construções da orla, naqueles tempos gloriosos, eram limitadas a quatro pavimentos. A Visconde de Pirajá já não contava mais com as linhas de bondes, mas os trilhos ainda estavam visíveis e, pasme, era permitido estacionar, sem pagar nada, ao longo de toda a rua.

Na primeira oportunidade saí à rua para explorar meus novos domínios e adquirir os insumos necessários à preparação de um bom café da manhã. Por sorte havia uma padaria do outro lado da rua e foi nesse local que me deparei com a primeira barreira linguística na nova terra. Como em toda padaria que se preze, o estabelecimento emanava aquele cheirinho gostoso de pão recém-saído do forno. Pedi, ao solícito funcionário, como fazia habitualmente no Sul, “um pão d’água de meio quilo”. Ele me olhou, espantado, informando que o pão não era vendido por peso, mas sim pelo nome. Não me fiz de rogado e solicitei, então, “um pão sovado”.  Novo olhar de incompreensão e resolvi atacar pelos flancos, pois comecei a achar que o funcionário estava de implicância comigo. Se não tem pão de meio quilo nem sovado, então, por favor, me traga um “pão cabrito”. Não houve reação e como a desconfiança já estava prestes a se transformar em algo mais sério, apontei para a prateleira ao fundo e exclamei, com voz firme: “por favor, quero aquele pão”  Ao que o funcionário respondeu: “por que não falou que queria uma bisnaga”? Aprendi, naquele exato momento, que apesar de estarmos no mesmíssimo país, existiam diferenças linguísticas que iam muito além do tu e do você no trato entre as pessoas.

Levei alguns anos para me incorporar ao modo de vida e ao sotaque carioca, bem mais informais e espontâneos do que o dos gaúchos. Todavia, mesmo depois de ter residido, por décadas, no Rio nunca, em momento algum, consegui incorporar aquele chiado característico de quem nasceu naquela abençoada – e tão maltratada – terra.

9 thoughts on “Agruras de um forasteiro

  • 26 de agosto de 2020 em 23:13
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    Pena que nao me perguntastes, teria te explicado os nomes! 😉

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  • 27 de agosto de 2020 em 05:31
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    Oi, Fê, isso aconteceu em Janeiro de1968, quando cheguei no Rio. Bjs. Daddy

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  • 27 de agosto de 2020 em 16:18
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    Meu caro primo e xará. Quando desembarquei em Cascavel, no longínquo ano de 1966, logo após meu casamento, saí a procura de um restaurante e pedi o prato que eu mais gostava quando residia em Porto Alegre: sanduiche aberto (aos desavisados que eventualmente cometam o mesmo erro, aviso: sanduiche aberto só existe em Porto Alegre e mesmo assim aos poucos está morrendo…). O garçom me olhou com o mesmo ar espantado que o teu padeiro e tive que explicar a ele o que era sanduiche aberto. Após alguns minutos de angustiante espera veio o abençoado sanduiche, porém…fechado! É claro que reclamei e o garçom simplesmente pegou um garfo, tirou o pão que estava por cima e exclamou feliz da vida: “Pronto! Agora está aberto!”.

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    • 22 de outubro de 2020 em 19:31
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      Passei por essa experiência ao entrar em um supermercado em Gramado (RS) e ao conversar com as pessoas vamos deduzindo algumas pala-vras pelo conteúdo do texto.
      Aliás em todo estado, é perceptível a diferença de termos para uma mesma palavra.

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  • 27 de agosto de 2020 em 20:04
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    É, primo, forasteiros sofrem. O Zé Vasconcelos costumava contar a história de um estrangeiro que chegou ao Brasil e, como só sabia pronunciar a palavra feijoada, foi obrigado a enfrentá-la durante toda sua estada. Já quebrei a cara, nos Estados Unidos, com scallops, uma espécie de molusco, que julgava ser a mesma coisa que escalope, um corte de carne. O melhor a fazer, nesses casos, é apontar para o prato de um vizinho e pedir a mesma coisa. Nelson

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    • 29 de agosto de 2020 em 11:17
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      Os contos do Dr. Nelson Menda nos fazem viajar no tempo, é uma delícia ler e compartilhar… O calor e a gastronomia do Rio continuam, apesar de já não ser um local que atraia tantos jovens talentosos recém-formados. Talvez hoje em dia o movimento seja para o Sul, ou quem sabe para o exterior! Vale mencionar que mesmo nos dias atuais a Visconde de Pirajá está cada vez mais valorizada (e badalada) e o chiado carioca parece ter se acentuado!

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  • 29 de agosto de 2020 em 04:43
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    Comida é uma coisa difícil de avaliar. Mas os sabores históricos são sempre melhores
    Quando estava na Residência no HSE a maravilha era tomar café da manhã fora do Hospital, num boteco ao lado do Hotel onde serviam um simples ovo frito …….

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    • 1 de setembro de 2020 em 02:32
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      Oi, Jablonka. Vc. foi um privilegiado, pois o Hospital dos Servidores do Estado, naquela época, era um primor, tanto nas instalações quanto no próprio atendimento dos seus pacientes. Mas isso foi antes da criação do endeusado SUS, Sistema Único de Saúde, que realizou uma autêntica salada mista, ao mesclar instituições modelares, como os serviços médicos do IAPC (dos comerciários), do IPASE (dos funcionários públicos federais) e IAPB (dos bancários) com os do IAPI (dos industriários) e IAPTEC (dos trabalhadores em transportes). Quando se mistura vinho com vinagre, mesmo com a melhor das intenções, o que acaba ocorrendo é estragar o sabor de ambos. Infelizmente, no Brasil, a cada mexida tudo piora. Pode parecer saudosismo, mas o Brasil já foi bem melhor no que toca à educação, saúde e segurança pública. Talvez a única coisa boa que restou da residência do HSE seja, mesmo, o tal ovo frito daquele, desculpe a sinceridade, “pé sujo” do entorno. Faltou mencionar as instalações do inacreditável “Hotel Barão de Teffé”, onde os residentes se hospedavam.

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  • 5 de setembro de 2020 em 05:20
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    Nelson, também enferntei “barreiras liguísticas logo que cheguei ao Rio em 1971. Eu nunca tinha estado por aqui e quando desembarquei, vim de mudança para trabalhar na Embratel, atendendo a um convite de meu ex-professor de eletrônica. Não tinha nenhum parente ou conhecido para me socorrer. Minha primeira dificuldade foi comprar “laranja de umbigo”, que gostava muito. Até descobrir que a dita se chamava laranja Bahia, comprei muito gato por lebre. Apesar de já morar no Rio há 50 anos, nunca peguei o chiado do carioca. Isto as vezes causa certa estranheza nos nterlocutores que logo perguntam: “você não é daqui não? Mas o pior é que quando vou a Porto Alegre para visitar minhas irmãs, algumas pessoas me perguntam “tche, tu não és daqui? Fiquei um alienígena!

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