Bicho de sete cabeças

Por Nelson Menda

O progresso da ciência nas últimas décadas foi tão surpreendente que chega ser difícil tentar explicar para os colegas mais jovens como foi possível exercer a medicina sem dispor dos atuais recursos para o diagnóstico e o tratamento de grande parte das enfermidades. Vou me ater, no presente texto, ao que acompanhei no âmbito da especialidade que exerci durante minha vida profissional, a Traumato-Ortopedia em geral e a uma patologia em especial, a Osteoporose, a que me dediquei com maior empenho nos últimos anos de atividade médica.

Quando concluí a faculdade, a Osteoporose era um autêntico quebra-cabeças, pois o que se conhecia eram mais suas complicações, ou seja, as fraturas, do que a enfermidade propriamente dita. Já se sabia que o cálcio era o mineral que conferia resistência aos ossos e a Vitamina D a responsável por sua absorção no organismo. Mas não se dispunham de meios precisos de diagnóstico para avaliar o quantitativo de massa óssea em duas regiões particularmente sensíveis do corpo humano, a coluna vertebral e o colo do fêmur. Na falta de meios apropriados e confiáveis, os únicos recursos para o diagnóstico da Osteoporose eram as biópsias e os exames radiológicos.

Esses últimos, na realidade, permitiam exibir o contorno dos ossos, mas não sua densidade, sua massa. Bastaria aumentar ou reduzir o tempo de exposição ou a intensidade do Raio X para que a interpretação visual e subjetiva do exame variasse entre uma suposta normalidade, um provável incremento ou até mesmo uma diminuição da massa óssea. Lembro de um congresso a que assisti aqui nos Estados Unidos, há algumas décadas, em que uma mesma radiografia óssea era exibida para três diferentes médicos e cada um deles emitia uma opinião distinta.

O surgimento da Densitometria Óssea representou uma luz no fim do túnel tanto para o diagnóstico quanto para o acompanhamento da eficácia dos diferentes fármacos disponíveis para o tratamento da Osteoporose. Todavia, como em qualquer coisa nova, logo surgiram os descrentes nesse método diagnóstico, que não “acreditavam” na eficácia e precisão do exame. Como se a ciência estivesse relacionada à fé, a uma crença, e não à lógica e o bom senso.

Naquela época, predominavam no meio médico tradicional algumas supostas certezas. Uma delas afirmava, na base do achismo, que a Osteoporose era uma condição definitiva, ou seja, as perdas ósseas seriam irreversíveis e de nada adiantaria se ter um diagnóstico preciso para uma doença supostamente incurável. Uma outra crendice era a de que somente crianças deveriam ingerir alimentos ou suplementos ricos em cálcio, pois o organismo dos adultos não teria capacidade para absorvê-lo. Para concluir, imperava no Brasil, mesmo entre os médicos, a crença de que o país, por sua privilegiada posição geográfica, ou seja, ser banhado pelo sol na maior parte do seu território, não haveria necessidade da suplementação da Vitamina D.

Ao mesmo tempo em que essas ideias fora de contexto imperavam entre grande parte da categoria médica os leitos e enfermarias dos hospitais estavam sendo ocupados, cada vez mais, por legiões de idosos, vítimas de fraturas relacionadas ao enfraquecimento ósseo. As pessoas estavam, pura e simplesmente, vivendo mais, ou seja, correndo mais riscos de sofrer quedas e quebrar algum osso. Com destaque para as fraturas do punho, coluna vertebral e colo do fêmur, as mais frequentes entre os idosos.

Sem falsa modéstia, fui um dos pioneiros, no Brasil, juntamente com um reduzido grupo de abnegados colegas, que passou a se preocupar com essa patologia e a possibilidade de reversão dessas expectativas sombrias. Não me arrependo, pois hoje em dia a Densitometria Óssea é um exame que faz parte do protocolo do diagnóstico da Osteoporose e a suplementação do Cálcio e da Vitamina D estão no rol dos chamados produtos OTC, do inglês Over the Counter. Isso significa que eles estão disponíveis nas prateleiras das farmácias e de alguns supermercados, podendo ser adquiridos e consumidos livremente, sem necessidade de prescrição médica. Já existem outras categorias de fármacos, os chamados anti-reabsortivos, que precisam ser receitados e têm um custo maior, mas tanto o Cálcio quanto a Vitamina D, felizmente, tem preços bastante acessíveis.

Quando se analisa o que ocorreu em um passado relativamente recente chega ser difícil acreditar na resistência que foi preciso enfrentar para comprovar o óbvio, ou seja, que a Osteoporose não era mais um bicho de sete cabeças. Foram desenvolvidos meios de diagnóstico confiáveis, tratamentos eficazes para interromper as perdas ósseas e, tão ou mais importante, ensinamentos que passaram a permitir a prevenção de grande parte das quedas e fraturas.

Se estamos vivendo, Baruch Hashém, uma ou duas décadas a mais que nossos pais e avós, que seja com dignidade e qualidade de vida. Dedico esse texto aos meus colegas e amigos pioneiros nessa jornada épica, alguns dos quais, atualmente, fazem parte do círculo de leitores deste Blog.

Foto: idah rosidah (Flickr)

3 thoughts on “Bicho de sete cabeças

  • Pingback: Bicho de sete cabeças - Rede Israel

  • 29 de outubro de 2020 em 22:21
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    Nelson, apesar de não ser médica, sou tetemunha viva dessa história :-). Em, praticamente, trinta anos, as coisas mudaram e muito! O advento da Densitometria Óssea mudou muita coisa na vida de muita gente e, dentre tantas outras coisas, possibilitou a prevenção dessa doença.

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    • 29 de outubro de 2020 em 23:49
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      Oi, Angela. Realmente, somos testemunhas vivas dessa verdadeira revolução ocorrida no campo da Osteoporose. É fácil deduzir que o mesmo tenha se passado com outras enfermidades crônicas. Nelson

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