Canis Lupus Familiaris

Por Nelson Menda

Desde a mais tenra idade, ao que me lembre, tivemos cachorro. Meu avô materno, quando chegou ao Brasil, na década de vinte do século passado, fazia questão de compartilhar suas refeições com um deles, que ficava estrategicamente deitado aos seus pés para receber generosos nacos de carne e pão. Em contrapartida, os bichos propiciavam afeto e segurança a toda a família. Não eram cachorros de raça, mas dóceis e fiéis vira-latas, que tomavam conta da casa e seus moradores.

Lembro remotamente do Black que, como o nome assegura, era um cão de pelo escuro e porte médio. Também recordo do Tupy, um cachorro que encontrou a porta da nossa casa aberta, foi entrando, na maior sem cerimônia, e acabou nos adotando como seus donos. Do Joly, que foi trazido da Praia da Alegria ainda filhote e morou conosco até os 18 anos, como comentei em Blogs anteriores. Foi um dos cães que marcou presença de forma indelével em toda a família, pois andava – e tomava conta – do nosso carro, veraneava nas praias do Imbé e Tramandaí. Fugiu de casa e conseguiu ser reencontrado, verdadeiro milagre, por mais de uma vez, pois nunca utilizou coleira e ainda não existiam os chips de identificação como atualmente. Já idoso, mas ainda interessado em amizades caninas do sexo oposto, saiu atrás de uma cadela no cio, atravessou ruas e avenidas movimentadas e se embrenhou, tarde da noite, no Parque da Redenção. Para quem não conhece, o local era um motel a céu aberto, frequentado por habitués do amor livre sem nenhum tipo de preconceito. Foi um sufoco conseguir encontrá-lo naquela versão porto-alegrense de Sodoma e Gomorra. Já deu para concluir que o Joly sempre fez o que lhe dava na telha. Inclusive o original e pouco frequente hábito de dormir no topo da mesa da sala, para onde subia tarde da noite, depois de ter a certeza que todos os humanos da casa já estavam recolhidos aos seus aposentos.

É importante frisar que essa mesa da sala, do tempo do casamento dos meus pais, estava reservada para um hipotético jantar solene que, a bem da verdade, nunca aconteceu. Era guarnecida por uma toalha de feltro verde com aplicação em alto relevo de flores artificiais, o xodó da dona da casa. Pois foi Dona Marieta, minha genitora, quem chamou a atenção para o misterioso aparecimento, todas as manhãs, de pelos brancos sobre essa toalha. Aquilo era muito estranho, pois o Joly, já idoso, costumava dormir dentro de casa, especialmente nos rigorosos invernos gaúchos. Como a mesa era alta, para alcançá-la seria necessário subir, primeiro, em uma das cadeiras do “terno”, como o conjunto de móveis da sala era denominado à época. O mistério só foi esclarecido quando o bicho, já velhinho, perdeu a hora de acordar e foi flagrado, dormindo a sono solto, sobre a tal toalha do enxoval de casamento. Levou uma merecida bronca e desceu, acabrunhado, orelhas baixas, para nunca mais voltar a subir na mesa. Prova de que ele sabia que estava fazendo algo errado, sinal inequívoco da inteligência canina, tema que tem absorvido meus pensamentos nos últimos tempos.

Os cães descendem de lobos e essa diferenciação entre as espécies é relativamente recente, sob o ponto de vista da evolução animal, pois apenas 15.000 anos separam o selvagem Lupus lupi do nosso Canis lupus familiaris.

No momento são três os cães que vivem aqui em Portland, sendo considerados como fazendo parte da própria família. A Luna, uma labradora branca de porte médio que provém de um canil da Califórnia. Na realidade, foi ela quem optou pela Ana, minha filha mais velha, pois demonstrou sua preferência quando ela foi conhecer a ninhada. Os labradores são cães dóceis e carinhosos, cujo defeito maior é a gula, pois estão sempre famintos e é preciso ficar atento, pois comem tudo o que encontram pela frente. Além do apetite voraz, a Luna adora andar de carro e faz questão de dormir na mesma cama da Ana ou do Noah, meu neto. A Luna já cruzou os Estados Unidos Coast-to-Coast diversas vezes, se hospedando nos hotéis e motéis denominados Pet-Friendly, que aceitam cachorros nos mesmos aposentos de seus proprietários.

A Fernanda, minha caçula, também é vidrada em cachorros e ganhou de presente uma imensa e mansa Newfoundland, preta, cuja raça é originária do Canadá. Só que a Lucy foi adquirida em um canil na Itália e precisou realizar diversos voos até chegar ao seu atual domicílio, em Portland, Oregon. Ela adora água e chora quando vislumbra, pela janela do carro, um rio ou lago. Se passar perto de um chafariz não se faz de rogada e se joga na água. Já salvou uma criança que estava sendo arrastada pela correnteza de um riacho. Na recente nevasca que cobriu a cidade de Portland, fez questão de puxar meus netos de 5 e 7 anos em uma espécie de trenó improvisado.

Para concluir o núcleo canino familiar, só falta mencionar a Sally, da mãe das minhas filhas. É a menor e mais valente das três, que não leva desaforo para casa, pois sabe latir e se defender de cães maiores. Foi adotada em Las Vegas, não se sabe se fugiu ou foi abandonada pelos antigos donos e chegou a queimar a sola das patinhas, provavelmente nas areias escaldantes do deserto.

Vou mencionar alguns outros cachorros que marcaram época, como o Galak, de uma querida amiga carioca, tão inteligente que bastava apontar com o dedo, para um determinado objeto para que ele se dirigisse ao local indicado e o apanhasse. O Bear, que se parecia com aqueles cães da raça japonesa Akita, que tinha um olhar quase humano e atuava como mediador para apartar as brigas e entreveros entre o Max, um cachorro bravo e a Luna, nossa labradora, dócil e sempre faminta.

O Max tinha pavor de veterinários e, para ir ao consultório, precisava ser sedado. Foi adotado em um abrigo para animais, pois seu antigo proprietário, já idoso, estava cansado de ir buscá-lo em casas de terceiros, pois vivia fugindo. Por sorte portava um chip, o que facilitava sua localização, mas ele só poderia ser adotado por quem se comprometesse a manter o nome original. O que foi obedecido pelo Gianlucca, seu atual proprietário, que fez questão de levá-lo de Miami para Milão, na Itália, quando retornou ao país natal. Sabedor da ojeriza do bicho por espaços fechados, Gianlucca precisou comprar uma passagem aérea integral para que o cachorro, ao invés de sofrer com o ruído, a escuridão e o isolamento do porão da aeronave, pudesse viajar na cabine de passageiros. Até parece que o bicho estava sabendo desse privilégio, pois fez questão de embarcar na frente do dono e se aboletou, todo pimpão, na poltrona ao lado da janela. Segundo o Gianlucca, ficou o tempo todo na janelinha, interessadíssimo em contemplar a paisagem. Recebemos, com regularidade, notícias e fotos do Max, que está amando a Itália.

Mari, minha irmã caçula, também adora bichos. Já adotou a Pinga, vira-latas proveniente de Cabo Frio com um forte pedigree cultural, pois nasceu na casa de um dos mais renomados pintores brasileiros. Depois da Pinga já teve vários poodles, todos adotados: Walter e Belinha, falecidos, seguidos pela Lucy, Nina e Jack, felizmente vivos. Além de cuidar da casa, a Nina, talvez até por instinto maternal, vela pelo sono do Nicholas, meu sobrinho-neto.

É curiosa a preferência pelos nomes Lucy e Nina, que batizam vários cães mencionados neste Blog. Além de guardiã do Nicholas, em São Paulo, uma outra Lucy, imensa e dócil, da raça Newfoundland, mora na casa da minha caçula, aqui mesmo em Portland. E a terceira delas vive do outro lado do Atlântico, em uma localidade denominada Sobral de Monte Agraço, Portugal. Compartilha o amplo espaço de uma quinta com outros três cães, dois deles de guarda, de uma raça nativa de Portugal e outros dois – ou duas – adotadas. São elas a Lucy, Ararat, Daisy e Nina. Estão isoladas, desde o início da pandemia, em uma ampla propriedade rural, na companhia da Professora Maria Eugenia, que fez questão absoluta de ser fotografada na companhia das suas “meninas”, como ela faz questão absoluta de chamá-las.

Como asseguram minhas filhas, cachorro é tudo de bom.

Foto: Maria Eugenia, de Sobral de Monte Agraço, Portugal

3 thoughts on “Canis Lupus Familiaris

  • 23 de abril de 2021 em 03:20
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    Parabéns Nelson pelo texto e parabéns a todos nós que desfrutamos desse convívio tão amigo dos nossos cães!
    Aproveito para felicitar a Eugênia pelos 4 fiéis companheiros!

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  • 23 de abril de 2021 em 03:33
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    E o Nico e a Tutty? Como não mencioná-los numa retrospectiva canina tão completa??? Aqui em casa temos a Pretinha e o Negrito, uma Yorkshire e um Doberman. Já estão idosos e nossos corações ficam apertados só em pensar de ficar sem eles!!! E a verdade é bem essa mesmo: acabam fazendo parte da Família, viajando 🧳, comendo juntos e até saem na foto de Família!

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    • 23 de abril de 2021 em 20:06
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      Oi Marcelo
      Não deu para mencionar todos
      Além da Tuty e do Nico, ficaram faltando vários cachorros.

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