Frutas cívicas

Por Nelson Menda

Minha família sempre gostou de consumir frutas. Lembro que, em criança, íamos ao cais do porto, na capital gaúcha, adquirir caixas de laranjas e bergamotas nos barcos vindos das regiões produtoras do interior do estado. Porto Alegre conta com uma malha de rios que desembocam no estuário do Guaíba e muitas embarcações chegavam à cidade abarrotadas de frutas, que podiam ser adquiridas diretamente dos produtores.

Meu pai, nascido em Lule Burgás, Turquia europeia, que chegou ao Brasil com 16 anos, sentia falta das cerejas, inexistentes em nosso país. Agora que estou residindo nos Estados Unidos, entendo a razão dessa saudade, pois as cerejas são, realmente, deliciosas.

Isso não significa que não dispuséssemos de excelentes frutas nativas do Brasil. No próprio terreno da nossa casa, em Porto Alegre, contávamos com uma frondosa pereira, que servia tanto para permitir emocionantes e arriscadas escaladas quanto a colheita e consumo de suas frutas que, quando cozidas em calda, com a adição de açúcar e cravos, permitiam a elaboração de deliciosas compotas.

Recordo que meu pai fazia questão de pedir à sua mãe, a saudosa vó Mari, em ladino, ao final de cada refeição: “Mamá, ke tenemos para sabor de boca”? Estava se referindo à sobremesa, geralmente constituída por algum doce ou fruta.

Com sua enorme variedade de nomes e sabores, as frutas sempre fizeram parte da própria história da humanidade, a ponto de ter servido para batizar algumas conhecidas localidades, como é o caso de Lima, a capital do Peru e também de Tanger, no Marrocos, para mencionar dois exemplos.

Essa última cidade teria dado origem à denominação da tangerina, deliciosa e prática fruta. Prática porque pode ser descascada com facilidade, dispensando o uso de facas. Também é chamada de mexerica em certas regiões do Brasil, pois seu odor inconfundível evidencia um consumo recente. É provável que derive dessa característica a expressão “mexeriqueira”, utilizada como sinônimo de pessoa fofoqueira. Da mesma forma, a cidade de Bérgamo, na Itália, teria inspirado o batismo da bergamota, como essa fruta é conhecida no sul do Brasil.

E também Damasco, a capital da Síria, para mencionar uma fruta bastante apreciada. No caso do damasco, existe uma dúvida. Quem teria surgido primeiro, a fruta ou a cidade? Um caso pitoresco é o do figo, que não nasce da figueira, árvore frondosa que propicia, nos meses quentes do verão, uma generosa e acolhedora sombra. Agradeço a gentileza do leitor ou leitora que puder esclarecer a discrepância entre a denominação dessa árvore e seu suposto fruto.

Vou incluir neste texto algumas localidades com nomes de frutas que me ocorrem, mas é bem possível que existam outras mais. Não nos damos conta, muitas vezes, dos vínculos existentes entre a denominação das frutas que costumamos consumir no dia-a-dia e sua estreita relação com a geografia e a própria história de seus respectivos países.

Comecemos pelos cítricos, com destaque para laranjas, limões, limas e tangerinas. Durante minha infância, as laranjas podiam ser encontradas nas variedades de umbigo, do céu, taquari e natal. As laranjas taquari representam um caso típico de toponímia vegetal, em que a denominação designa a localidade originária da fruta. Taquari é uma cidade do Rio Grande do Sul fundada por colonos açorianos e banhada por um rio de mesmo nome. Teriam esses açorianos trazido as sementes de laranjeira do seu torrão natal? Só sei que o Arquipélago dos Açores foi um grande produtor de laranjas, dizimadas por uma praga, no século 19, transmitida por um inseto que chegou às regiões produtoras nos porões dos navios.

Já as laranjas de umbigo, geralmente maiores e mais suculentas, são as campeãs no critério sabor e praticidade. Por uma feliz coincidência essa é uma das frutas em que a denominação em português e inglês se assemelha. Navel – se pronuncia neivel – em inglês significa umbigo, tanto para a cicatriz que todos possuímos no abdome quanto para a fruta propriamente dita. Além do sabor, as laranjas de umbigo apresentam a vantagem de poder ser descascadas e divididas em práticos gomos, o que facilita seu armazenamento, transporte e consumo.

Além das de umbigo, existiam as laranjas natal, de gosto intermediário, nem doces nem azedas, ideais para ser consumidas sob a forma de suco. Eram, geralmente, colhidas no final de cada ano, de onde se originava sua denominação.

Para crianças pequenas optava-se pela Laranja do Céu, de sabor levemente adocicado, preferidas para o consumo por lactentes. Essa mesma variedade, no Rio, é conhecida por Laranja Lima.

Em contraposição, existiam as azedas Laranjas Pera e até hoje não entendi a razão de seu plantio e consumo, pois seu sabor, pelo menos para mim, sempre foi extremamente desagradável. Já que estou mencionando as azedas, é indispensável citar uma laranja de casca grossa, bastante azeda, utilizada na produção do delicioso doce de laranja, em calda ou cristalizado, uma refinada iguaria para os apetites mais exigentes.

Quanto às tangerinas, podem variar no tamanho, sabor e denominação. No Sul do Brasil eram denominadas bergamotas, por ser originárias, remotamente, da cidade italiana de Bérgamo. Aqui nos States são denominadas clementines e costumam apresentar um sabor levemente adocicado. Como são fáceis de descascar, costumam fazer parte dos lanches escolares. Há alguns anos, no Brasil, surgiu uma variedade um pouco maior de tangerina, a poncã, também consumida em gomos.

Além de Tanger, no Marrocos, podemos mencionar uma outra cidade do continente africano, mais precisamente na Argélia, cuja denominação, Orange, significa laranja. Uma outra fruta cítrica com provável relação geográfica é a Lima, também chamada de Lima da Pérsia. Tenho dúvidas se essa denominação estaria relacionada à capital do Peru, nosso vizinho da América do Sul ou à alguma cidade do atual Irã, também conhecido como Pérsia. A Lima, ou Lima da Pérsia, tem um sabor agridoce inconfundível e um seleto fã clube de apreciadores.

Por falar em cidades com nome de frutas, gostaria de mencionar uma espécie aparentada com o pêssego. Não é cítrica, nem utilizada na obtenção de sucos. Estou me referindo ao damasco, mesmo nome da antiga e tradicional cidade síria. Não se sabe quem inspirou quem, se a cidade ou a fruta. E já que estamos abordando o tema das frutas provenientes do Oriente, não poderia deixar de mencionar as suculentas e adocicadas tâmaras, também conhecidas por dates ou dátiles. São frutos de uma frondosa palmeira que se adaptou ao clima de outros países, sendo cultivada tanto na Argélia quanto na Tunísia e também na Califórnia.

Impossível não ficar com água na boca ao redigir o presente texto. Imagino que os leitores estejam passando pelo mesmo problema e peço desculpas, antecipadamente, caso não disponham de uma das frutas mencionadas. Que foi inspirado, verdade seja dita, por um pequeno estoque de tâmaras estrategicamente guardado na geladeira do meu apartamento, para serem consumidas, em doses homeopáticas, uma a cada dia. Afinal, também sou, como se diz no Brasil, filho de Deus.

Foto: S. Hermann & F. Richter (Pixabay)

5 thoughts on “Frutas cívicas

  • 22 de setembro de 2022 em 02:07
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    Adorei esta crônica,Nelson!!!! Também fiquei com água na boca porque gosto de todas as frutas que V.refere…e lembro muito bem de irmos ao cais compra-las!!! Meu pai abria o bagageiro do seu pequeno carrinho europeu
    e derramavam sacas e mais sacas de laranjas,bergamotas e outras!!! Linda…obrigada!!!

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  • 22 de setembro de 2022 em 07:38
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    Que texto delicioso!!! Amo frutas e tangerina é uma delas! Meu pai não gostava do cheiro forte dela, mesmo que comecemos escondidas elas alertavam a traquinagem, por que mesmo sabendo que ele não gostava não deixava nos de come-las. Viu só, você me despertou lembranças maravilhosas!! Pena que aqui em Israel não está na época da fruta, mas se tivesse na iria atrás!!!

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  • 23 de setembro de 2022 em 13:55
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    Prezado Menda,

    Parabéns pela crônica, me fez viajar pela minha infância e todas as recordações de frutas de minha infância, principalmente no sítio de meu tio na qual ia praticamente todos os finais de semana!

    A goiaba, em especial, foi marcante já que havia um grande pé no quintal de minha casa e além da fruta que eu adoro, a árvore era uma excelente fonte de escalada para as mais diversas aventuras de super-heróis (Galaxy-Trio, Falcon, Quarteto Fantástico, Família Jacksons e etc…)! Obs: só os mais velhos entenderam! rsrsrs.

    Quanto a Tâmara, você não me deu inveja, essa semana encontrei no hortifruti perto de minha casa e comprei lotes de tâmaras Israelenses! Uma delícia! Que por sinal, tratei de adquirir mais.

    Grande abraço, continue a escrever!

    Um Ano Novo DOCE e ALEGRE! B”H

    Eduardo Almeida

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  • 23 de setembro de 2022 em 15:08
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    Nem me fale em tâmaras. Mas , eu não sou comedida como tu. Vou pegando , logo três das que nos chegam em forma de passas e que são macias e carnudas por dentro.Uma delícia! Também entendi o significado de bergamota que nunca consegui explicar aos paulistas. Obrigada pela erudição.

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  • 25 de setembro de 2022 em 23:22
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    Oi Lenita. Imaginei que vc. iria comentar a respeito da citação de Taquari, origem da sua família e da deliciosa laranja proveniente da região. Fiquei sabendo que Taquari, além da laranja, apresenta uma das terras mais férteis do mundo. E também que o Rio Taquari desemboca no Jacuí, que costumava cruzar em uma balsa quando viajava entre Porto Alegre e Santa Maria, antes da construção da ponte. Bons tempos.

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