Como tornar uma criança manhosa?

Por Marion Minerbo

Marion – Olá, AnaLisa, sobre o que você gostaria de conversar hoje?

AnaLisa – Olá, Marion. Outro dia estava na casa de uns amigos em Jerusalém. Eles têm uma filhinha de uns 5 anos. Uma graça. Mas vou ser honesta: ela é bem chatinha. Chora por qualquer bobagem. Percebi que, em vez de ser atendida, acaba sendo rejeitada. E dá para entender: quem quer ficar perto de uma menina tão chata? Os pais me disseram que já tentaram explicar que choramingar e fazer manha produz o oposto do que ela quer, mas não adiantou. Acham que “é dela mesmo”, tipo, da personalidade dela. O que a psicanálise tem a dizer sobre isto? Eu mesma estou pensando em ter filhos, mas depois deste dia lá com eles, desanimei…

Marion – Bem, crianças não nascem manhosas. Elas se tornam manhosas, infelizmente, com a nossa participação. Sem perceber, nós fazemos com quem fiquem assim.

AnaLisa – Puxa, seria tão bom se todos os pais pudessem ser orientados preventivamente!

Marion – Em muitos casos seria bem útil, mas em outros nem tanto, porque muitas atitudes inadequadas dos pais são totalmente inconscientes.

AnaLisa – Então eles nem percebem, ou se percebem, não conseguem mudar…

Marion – Isso mesmo. Mas voltando ao nosso assunto. Imagina um bebê ou uma criança bem pequena que ainda não fala. Quando, sistematicamente, ela sente que ninguém presta atenção naquilo que para ela é importante. Que ninguém tem tempo e paciência para ela. Que suas “pequenas demandas” não são reconhecidas nem respeitadas…

AnaLisa – … o que é o caso de tantos pais hoje em dia! Eles não têm tempo nem paciência porque estão lutando pela própria sobrevivência. Trabalham feito loucos para garantir o emprego e ter como pagar as contas.

Marion – Sim, você tem razão. Não estou culpando ninguém. A situação é trágica porque todos sofrem e todos têm razão.

AnaLisa – Só que a criança pequena não sabe disso.

Marion – Ela só sabe que se sente sozinha e sem valor para aquele adulto que raramente está disponível. Sendo que “disponível” quer dizer presente emocionalmente, interessado de verdade no mundinho da criança. E isto desde o comecinho. O bebê precisa achar que é “natural” ter alguém ali para ele. Isso vai ajudá-lo a confiar que vai ser atendido.

AnaLisa – E quando perde essa confiança?

Marion – A criança fica “presa” na tentativa meio desesperada de chamar a atenção com a única arma que tem: chorar, reclamar, atazanar. A gente chama isso de “manha”.

AnaLisa – Mas essa tentativa também vai fracassar, pois em geral a reação dos adultos é menos paciência, e não mais! Vamos combinar que é mesmo irritante!

Marion – Claro que é! Justamente por isso, o meio de campo vai embolando. Quanto mais o adulto fica irritado, mais a criança vai pegando pesado nesta forma de comunicação, na esperança de ser escutada.

AnaLisa – Imagino que isso se torna o padrão da comunicação.

Marion – Isso mesmo. Mas tem mais uma etapa para que a criança se torne realmente manhosa. Ela acaba achando que se relacionar com os adultos é isso aí: pedir alguma coisa já com aquele tom/voz de manha, ouvir uns berros, não ser atendida, chorar, ficar de castigo. Nessa altura, ela já nem está mais tão interessada em conseguir alguma coisa, e sim em fazer o adulto reagir, pois só assim se sente tendo uma existência real para ele.

AnaLisa – Quer dizer que a criança se torna manhosa quando passa a precisar da reação de rejeição do adulto!

Marion – Exatamente! Pois só essa reação prova que ela conseguiu “afetar” de verdade aquele adulto tão inatingível – que em geral é a mãe! Tanto que crianças manhosas podem ser perfeitamente encantadoras com outros adultos.

AnaLisa – Que triste, pois ela produz rejeição para não sentir algo bem pior, que é a indiferença/distância emocional em relação ao adulto significativo.

Marion – Isso mesmo: atenção negativa é melhor do que nenhuma atenção. Todos perdem, não é mesmo?

AnaLisa – E tem como reverter isso?

Marion – Talvez. Depende da idade da criança. Quanto mais nova, melhor. Se o adulto significativo conseguir se tornar mais disponível emocionalmente – mais sintônico com as necessidades da criança – em geral ela percebe a mudança e se acalma.

Foto: Amarpreet Singh por Pixabay

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