Eletrodomésticos

Por Nelson Menda

Meu primeiro encontro com um eletrodoméstico aconteceu em circunstâncias bastante peculiares. Antes disso, porém, é preciso fazer uma retrospectiva para esclarecer aos mais jovens certos detalhes a respeito do estilo de vida de uma família judaico-sefaradi gaúcha nos anos 50 do século passado.

Minha avó paterna, exímia cozinheira, utilizava um fogão a carvão para preparar “agristadas, tapadas, fritadas, guevos con tomat” e outras delícias da culinária ibérica e turca. Aproveitava o calorzinho das cinzas para ir cozinhando, lentamente, como recomendava a tradição, ovos de galinha, os “guevos haminados”, disputados por todos.

Já na nossa casa, a uma quadra de distância, dispúnhamos de um fogão à lenha, que demorava uma eternidade para esquentar e outro tanto para esfriar. E que consumia uma barbaridade de madeira, com toda a certeza proveniente da derrubada de matas nativas, pois não se cogitava, nem se conhecia a expressão meio ambiente. A lenha, distribuída por carroceiros, provinha do interior do estado, chegando à capital gaúcha em barcaças que ficavam ancoradas em um braço do Guaíba que acabou aterrado e ficava bem perto de onde morávamos, na Demétrio Ribeiro. O que sobrou desse pequeno afluente, que pode ser visitado ao vivo ou contemplado em postais, é a chamada Ponte dos Açorianos, que hoje liga nada a lugar nenhum na Muy Leal e Valerosa Porto Alegre, minha terra natal. Ao serem retiradas das barcaças as “achas” de lenha eram depositadas nas calçadas às margens do rio, na chamada “zona do pecado” da cidade, a Rua Pantaleão Teles. Tão pecaminosa que figuras ilustres da melhor sociedade conseguiram que algum prefeito mudasse seu nome para Washington Luiz. Não adiantou muito, pois as chamadas “casas de tolerância” continuaram a funcionar nos mesmos locais.

Nossa residência ficava a duas quadras da Pantaleão, distância que assegurava a manutenção do caráter eminentemente familiar do logradouro e a garantia da preservação da moral e dos bons costumes. Na Demétrio residiam, além da nossa família, diversas outras, de imigrantes árabes, italianos e armênios, praticamente ao lado da melhor sociedade gaúcha, com seus tradicionais sobrenomes de origem açoriana.

Meu primeiro encontro, não com alguma pecadora da Pantaleão, mas com um eletrodoméstico, acabou acontecendo longe dali, no Bom Fim, onde residiam os esquenazis, ou seja, a outra metade da minha laranja familiar. Minha mãe era a filha do meio de uma família judaica proveniente de Kaminka, lugarejo que já fez parte dos Impérios Otomano e Russo e cuja região já se chamou Bessarábia ou Romênia, sendo conhecida, atualmente, como Moldávia.

A título de curiosidade, é importante mencionar que tanto meu pai, natural da Turquia, quanto seus genitores, irmãos e irmãs, gostavam de relatar, com alegria, fatos e acontecimentos a respeito do seu país de origem e dos amigos e parentes que permaneceram por lá. Prova inequívoca de que tinham sido felizes. Sempre demonstraram orgulho, também, a respeito da ascendência espanhola da família, de onde provém nosso sobrenome e do ladino, a língua falada na casa dos meus avós paternos e entoada nos cânticos litúrgicos do Kal, a Sinagoga Sefaradi de Porto Alegre. Apesar de nossos ancestrais terem sido expulsos da Espanha em 1492, não guardavam nenhum tipo de mágoa ou rancor, atribuindo esse fato a um provável equívoco da Rainha Isabel, essa sim um personagem detestável.

Do lado da minha família materna o quadro era diametralmente oposto, pois ninguém gostava, sequer, de mencionar o nome da cidadezinha de onde meus avós tinham saído, para nunca mais voltar. As duas irmãs da minha mãe sempre se destacaram como exímias cozinheiras. A especialidade da mais velha era galinha assada no forno recheada com uma farofa à base de miúdos da própria ave. Delícia que ela, provavelmente, aprendeu com sua genitora, pois deveria ser um segredo familiar guardado a sete chaves e transmitido, de mãe para filha, geração após geração.

Não é à toa, portanto, que ostento uma barriguinha, pois cresci cercado por quitutes de diferentes origens, agregados às delícias da culinária gaúcha e brasileira. Lembro, com água na boca, do onipresente feijão com arroz, do churrasco, do arroz carreteiro e do aipim frito, um privilégio dos habitantes da América Latina e do italianíssimo galeto al primo canto com polenta frita e raditi. Fora as sobremesas, como o figo em calda ou cristalizado, a ambrosia, os mil folhas, as bombas de creme e chocolate e os quindins. Ah, os quindins, uma genial simbiose entre as culinárias portuguesa e africana. Sem falar nas cucas e tortas, introduzidas no Rio Grande do Sul pela operosa colônia alemã.

Quanto aos eletrodomésticos, foi um primo da minha mãe, apreciador de novidades tecnológicas, que convidou metade da família, em um domingo, para assistirmos uma demonstração, ao vivo, de algo inacreditável, recém chegado da América: o liquificador. Assim mesmo, liquificador – e não liquidificador – pois a novidade, revestida por uma cobertura de alumínio, tinha o poder mágico de transformar, em poucos minutos, alimentos sólidos em líquidos. Quando os convidados chegaram, colocou o exótico objeto sobre a mesa da cozinha, solicitou à minha tia uma cenoura crua, pediu que todos se retirassem do aposento, por razões de segurança, e ligou a máquina, bastante ruidosa. A seguir, abriu sua tampa e jogou a cenoura, inteira, no seu interior, o que acabou provocando uma reação inesperada. O vegetal, acho que por sua aerodinâmica e forma cônica, com a mesma rapidez com que entrou, saiu voando, inteirinho, em direção ao teto da cozinha. Os espectadores, entre surpresos e assustados, julgaram que aquele bólide voador fizesse parte da performance, mas a alegria durou pouco. A dona da casa, enfurecida, adentrou no seu sagrado aposento e ali mesmo, tal qual Adão e Eva expulsos do paraíso, pediu para um acabrunhado demonstrador se retirar, incontinenti, da sua cozinha, levando consigo aquela perigosa engenhoca. Assegurou a todos os presentes, alto e bom som que, enquanto fosse viva, liquificador algum faria parte do seu arsenal de facas e demais apetrechos culinários.

Felizmente mudou de ideia porque, além do liquidificador, hoje em dia, não existe cozinha alguma, seja em Pindorama ou nos States, que não disponha de uma série de “appliances”, os mil e um acessórios que facilitam a vida de quem gosta ou precisa cozinhar.

Todavia, tenho sido perseguido, desde que cheguei ao país, não por liquidificadores, geladeiras, batedeiras, fornos de micro-ondas ou diferentes modelos de fogões, mas pelas ardilosas e traiçoeiras máquinas de lavar louça. Nenhuma delas, em todos os locais em que residi – e que não foram poucos – funcionou a contento. A ponto de ter desistido de utilizá-las e passar a contar, somente, com água corrente, esponja e sabão, para lavar a louça, e um escorredor para secá-la, no melhor estilo das minhas saudosas avó e tia. Que, se estiverem lendo este Blog, devem estar sorrindo de orelha a orelha, com aquele ar de superioridade das pessoas que sabem das coisas.

Foto: Spanish Coches (Wikimedia Commons)

9 thoughts on “Eletrodomésticos

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  • 3 de dezembro de 2020 em 13:25
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    Olá, Nelson, quando a pessoa é criativa, até um eletrodoméstico é motivo para uma bela crônica.
    Parabéns!

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  • 3 de dezembro de 2020 em 13:44
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    Do mesmo modo que o “liquificador” transforma a forma de alimentos e os apresenta como outra coisa, sua crônica faz o mesmo com as memórias, trazendo nova e atraente verdade aos fatos simples do cotidiano de outrora.

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  • 3 de dezembro de 2020 em 16:31
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    Meu caríssimo Nelson. Em primeiro lugar, deveria ter um aviso no início do texto tipo “Não indicado para quem está de dieta”. Eu, com meu estômago roncando perto do meio dia, saudoso dos bons pratos, lendo o teu artigo, quase tive uma recaída! Fica o aviso para os próximos. Entretanto, eu também tenho uma excelente memória e acho que o liquidificador deve ter sido o segundo eletrodoméstico que conheceste. Citaste tanto a vó Maria e esqueceste que ela tinha – acho que a única casa em toda Cidade Baixa – uma possante máquina de lavar roupa, toda em azul, o que era objeto de adoração toda vez que eu ia lá pela engenhosidade humana em construir aquela maravilha da engenharia “moderna” que substituía as lavadeiras que iam semanalmente em casa recolher e entregar roupa. Mas, esta pequena contestação não tira o brilho do texto, que como bem disse minha antecessora nos comentários, a sra Helena Wstazka, quando a pessoa é criativa, até um eletrodoméstico é motivo para uma bela crônica. Tchau.

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  • 4 de dezembro de 2020 em 07:18
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    Oi, Davi. Tivemos uma experiência trágica com uma dessas primitivas máquinas de lavar – e secar – roupas. Minua irmã mais velha, fascinada pela novidade, resolveu testar seu funcionamento. Na hora de lavar, correu tudo bem, mas o problema foi na etapa seguinte, a da secagem da roupa. Era um processo, reconheço, bastante primitivo, pois as peças deveriam ser colocadas, ainda úmidas, entre dois cilindros rígidos localizados no topo da máquina que, ao girar, espremiam o tecido, retirando o excesso de água. Só que ela, inexperiente, não prestou muita atenção e, à medida que a roupa era sendo puxada pelos tais cilindros, sua mão, punho e, a seguir, o próprio antebraço foram sendo sugados junto. Lembro do seus gritos de terror, pois ninguém conseguia parar a máquina e interromper aquela verdadeira tragédia. Não lembro se foi meu pai ou algum vizinho que conseguiu desligar a máquina e liberar seu antebraço. Levaram-na para o Pronto Socorro, de onde só retornou, tempo depois, com o braço e o antebraço engessados. Acredito que tenha fraturado, por esmagamento, os ossos do antebraço que, por sorte, não tiveram consequências mais sérias. Só sei que a tal máquina sumiu da nossa casa. Vai ver, foi a tal que apareceu na casa da vó Maria, seguindo a máxima de Lavoisier de que “na natureza, nada se cria, nada se perde…”.

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  • 6 de dezembro de 2020 em 05:25
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    Nelson, acho que as “casas de tolerância” ficavam na Rua Vountários da Pátria… verifique bem…
    Milton

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  • 6 de dezembro de 2020 em 16:21
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    Ainda sobre o assunto aquela região era tb chamada de “zona do meretricio “

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  • 8 de dezembro de 2020 em 00:58
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    Oi, Milton. Além da Voluntários e da Pantaleão Teles, Porto Alegre contava com a concorridíssima Cabo Rocha, sem falar na Botafogo, na Azenha. Com a moral rígida da época, que praticamente obrigava as “jovens de família” a casar virgens, a solução para os homens era buscar alívio com as chamadas “moças de vida fácil” nas zonas do meretrício. E dê-lhe blenorragia e sífilis. Pelo menos, sob esse aspecto, melhoramos bastante.

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  • 11 de dezembro de 2020 em 15:21
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    Nelson, genial o texto! Uma divertida forma de viajar no túnel do tempo….me fez lembrar de quando iniciei a morar na Bento Martins, ainda existiam nas imediações algumas destas tais casas de tolerância, que pouco a pouco sumiram. Nossa culinária….tão rica e saborosa!
    Por um momento me transportei no tempo em doces lembranças!
    Fantástica descrição!
    Saudades.

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