O amor a uma terra

Por Janine Melo

Esse fim de semana nós fizemos as malas e subimos no carro com só um destino em mente: Ramat HaGolan. Durante a viagem em direção norte passamos pela rota 98 que contorna o Lago da Galileia (Kineret) a sua direita. Ao passar por lá, me deparo com uma cerca alta e antiga ao lado da rota e pergunto ao meu marido: “o que é isso?”. Ele ri e me responde “ora, é a cerca que nos separa da Jordânia”. A Jordânia? Eu desacelero o carro e olho rapidamente para a cerca e para todo o vale ao leste dela. “Essa é a Jordânia? E essa cerquinha de nada é o que nos separa dos jordanianos?”, eu perguntei cética. “Sim”.

Fizemos uma parada em Ein Aqub e de lá, fomos para um ponto de observação chamado Shvilei Kineret (“caminhos de Kineret”), um ponto feito em memória a Kineret Mendel, uma jovem israelense que foi assassinada em um ataque terrorista em 2005. Assim como eu, Kineret amava caminhar, conhecer novos horizontes e aumentar a sua conexão com esse pedacinho pequenino de terra chamado Israel. Eu olho para o Kineret (Lago da Galileia), eu penso em Kineret, eu vejo meu filho apreciando a vista com os olhos arregalados e suspiro.

Ramat HaGolan é uma área especial para Israel não só por sua infinita beleza, mas também por ser uma área estratégica que foi conquistada da Síria na Guerra do Seis Dias, em 1967. Quem já esteve no exercito, lê mapas e entende de topografia, compreende a imensa importância de áreas de montanhas para um país, pois estas lhe oferecem uma vantagem enorme em caso de ataque inimigo. Assim como Ramat HaGolan, o Vale do Jordão também é uma área extremamente bonita e importante por sua topografia. Eu me lembro do Vale do Jordão durante minha viagem na rota 98 e me sinto um pouco confusa.

Nas últimas semanas nós ouvimos muito sobre o Vale. Do norte do país eu vejo, por um lado, a importância do tratado de paz com a Jordânia, mas por outro eu vejo a importância de termos justamente esses territórios como nossos, pois eles são os que nos garantirão nossa resistência como país em caso de futuros ataques. Eu penso sobre o futuro, sobre o tratado de Trump, sobre territórios que ate hoje não são vistos nem como “de um”, nem como “do outro” e instantaneamente tento pensar em outra coisa para que meu passeio na se arruíne.

No outro dia nós chegamos a Maayan Canaf, também chamado de Maayan Ashi, um mini lago que foi construído em memoria a Asher (“Ashi”) Nuvik, um soldado que foi morto na segunda guerra contra o Líbano em 2006. Enquanto minha família entrava no lago e se refrescava, eu andei pelo lugar até me deparar com um cantinho, na descida das escadas, que dava para uma vista magnífica das montanhas do Golan. “Eu amo esse país”, pensei na hora. “Eu amo esse país. O Negev, o Golan, a Biqa (o vale). Devolvendo ou não devolvendo, pra mim esse sempre vai ser meu país, o mesmo que foi construído em cima de guerras lembradas pelos nomes eternizados de soldados e vítimas nas pedras, vistas e lagos dessa terra”. Hoje eu não vim remeter uma opinião. Talvez eu tenha vindo levantar perguntas. Mas, com certeza, eu vim fazer uma declaração: o amor a uma terra é, por vezes, inexplicável, assim como seu futuro. Mas seja o que for, esses pedaços de terra que eu aprendi a amar com meus próprios pés serão eternamente parte de quem sou.

Foto: Janine Melo, em Maayan Ein Aqub

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