Reflexões sobre a sociedade em tempo de crise

Quarta semana de quarentena e o número de doentes só cresce em Israel e no mundo. Essa semana eu andei cinquenta metros até o portão que separa minha casa do deserto e avistei no horizonte dois jipes indo em direção às montanhas. Me lembrei então da cidade de Oran no livro “A Peste” de Camus, na qual sua população continuou agindo como se a peste nunca chegaria até eles. Nessas horas, minha mente vai diretamente para os escritos de Beck e Klinenberg, sobre riscos modernos e sociedade.

Ulrich Beck, sociólogo alemão da segunda metade do século 20, escreveu sobre a sociedade de risco em que vivemos, nos tempos que ele chama de segunda modernidade. Nesta nova fase dos tempos modernos, as sociedades do mundo inteiro estão conectadas umas às outras, queiram ou não, pelo simples fato de todas estarem a mercê de um novo tipo de risco que se formou nos tempos pré-industriais. Estes riscos não sabem o que são limites territoriais, não se limitam a um determinado período de tempo e não há seguro que consiga pagar e diminuir seus efeitos fatais. Beck escreveu sua teoria apos Chernobil, mas nós facilmente podemos “vesti-la” no mundo atual e na nossa realidade junto ao coronavírus.

Sendo assim, Beck comenta a possível necessidade de uma organização mundial, que seja mais poderosa que os próprios governos nacionais que não têm a possibilidade de lidar com esses riscos. Meus olhos releem essas ideias enquanto ouço as noticias dos jornais – “abril 2020, as portas de todos os países se fecham e um dos principais jornais israelenses publica que uma nova recarga de equipamento medico chegou a Israel por conta das ótimas relações internacionais do primeiro ministro Netanyahu”.

Eu me pergunto: e os cidadãos dos países que não têm boas relações internacionais?”

Eric Klinenberg toma essa ideia de risco e põe o foco na sociedade; ele tenta fazer uma utopsia social da onda de calor que atingiu a cidade de Chicago nos EUA, em 1995. Muitas vezes, riscos como esses que nós presenciamos são vistos como fatais para todo mundo, sem diferença de religião, etnia, nacionalidade e gênero. Mas, se pararmos para pensar bem, isso não é totalmente verdadeiro. A onda de calor em Chicago discutida na tese de Klinenberg atingiu toda a cidade, mas as pessoas que morreram por conta dela estavam situadas em áreas geográficas especificas, nos bairros mais pobres da cidade. Durante sua pesquisa, Klinenberg percebeu que a maioria das mortes em Chicago se deu em pessoas pobres, que não tinham condições locais para lidar com o calor; em pessoas idosas, que não tinham parentes para cuidar deles; e em bairros nos quais a aproximação entre pessoas era mínima, ou em outras palavras, cada um cuidava de si mesmo e não se importava com o que estava acontecendo com o vizinho ou o parente que morava a dois blocos de distância.

Nós estamos em frente a uma crise que atinge não somente uma cidade, pais ou continente, mas o mundo todo. Apesar das portas nacionais estarem se fechando justamente quando a necessidade de ajuda mútua é absolutamente necessária, acredito que é agora que nós devemos tomar as rédeas de nossas vidas não só como individuais mas também como coletivo e provar que a fatalidade dos riscos modernos podem ser minimizada.

O primeiro passo, obviamente, é ficar em casa. Mas quem tem a opção de agir deve fazê-lo. Em Israel há várias organizações procurando voluntários para ajudar as municipalidades a distribuir comida para famílias necessitadas, agricultores que precisam de mão-de-obra para conseguir colher seus frutos e sobreviver até o fim do mês e casas para idosos que procuram pessoas que possam conversar com seus habitantes pela internet para que eles não se sintam sós. E o melhor: há muita gente fazendo esse tipo de trabalho, que é aprovado pelo Ministério da Saúde e pelo governo israelense.

Vamos aprender de casos passados, compreender que não são todos que têm o privilégio de ficar em casa e esperar o vírus sumir do mundo, e provar que não é preciso simplesmente sobreviver a essa época de pandemia, mas também viver e ajudar os outros nesse processo. Chag Pessach Sameach!